Silencioso e Lúgubre: A evolução emocional do luto à arte em Hushed and Grim (Mastodon)

 

Por Felipe Leonel 

Se existe um álbum do Mastodon que pode ser chamado de o mais doloroso, esse álbum é certamente “Hushed and Grim” (2021). É um disco que fala sobre luto, não sobre a morte em si, mas sobre quem fica depois dela.

Enquanto “Crack the Skye” (2029) fala sobre transcendência e “Emperor of Sand” (2017) sobre aceitar a própria mortalidade, “Hushed and Grim” trata de uma experiência diferente — Como continuar vivendo depois que alguém que você ama morre?

O álbum nasceu após a morte de Nick John, empresário da banda durante muitos anos. Nick não era apenas um profissional, era amigo e praticamente um quinto integrante que acompanhou o Mastodon desde os primeiros anos e ajudou a banda a atravessar inúmeros momentos difíceis. 

Em 2018, Nick morreu em decorrência de um câncer e essa perda abalou profundamente os quatro integrantes que decidiram transformar esse processo de luto em música.

Sobre quem fica, não sobre quem parte 

"Hushed and Grim" pode ser traduzido de diferentes maneiras, silencioso e sombrío, calado e lúgubre, quieto e pesado. E é exatamente essa a atmosfera do álbum. Aqui não existe aquele sentimento de aventura de “Leviathan” (2004), nem a grandiosidade cósmica de “Crack the Skye”, tudo em “Hushed and Grim” parece mais lento, mais cansado, como alguém que passou muito tempo tentando aceitar uma perda.

Outra grande diferença de outros álbuns do grupo é que aqui, não existe um personagem central. Em “Emperor of Sand” e “Crack the Skye”, por exemplo, ambos têm um protagonista, existe ali uma narrativa cada, um mundo fantástico ou cósmico. Em “Hushed and Grim” não. 

Nesse disco, as músicas são fragmentos emocionais onde cada uma aborda um aspecto diferente do luto. Às vezes culpa, depois saudade passando pela raiva e por vezes a esperança. É quase como percorrer os estágios do luto, mas sem uma ordem rígida.

A simbologia da árvore 

A capa também tem bastante significado nesse espectro emocional mostrando uma enorme árvore. Ela não parece morta, também não parece completamente viva. É uma imagem perfeita para um disco onde a representação da ideia de memória, raízes, continuidade e crescimento estão presentes.

Em suma, coloca como significado que, mesmo depois da morte de alguém, as raízes ainda permanecem. Essa ideia também dialoga muito com a faixa ‘Roots Remain’, do álbum anterior, mas aqui é como se o Mastodon tivesse desenvolvido aquela metáfora de maneira completa.

              

Construindo a jornada do luto 

Pain With an Anchor 

— É a abertura, e o título já diz muito, uma "dor com uma âncora". Não é um sofrimento passageiro, é algo que prende, que pesa e que, musicalmente, já mostra o clima do disco, menos velocidade e mais emoção.

The Crux 

— Uma música sobre carregar um peso. "Crux" significa de muitas maneiras a cruz, um ponto central ou até mesmo um fardo. É uma composição sobre continuar caminhando mesmo quando tudo parece difícil.

The Beast 

— É uma das mais simbólicas e, ao contrário de outras faixas que tratam o luto de forma mais direta, essa transforma a dor em uma figura, a besta, mas em vez de um monstro físico, como uma baleia ou criaturas das montanhas, a besta aqui é algo que vive dentro do protagonista e o acompanha constantemente.

Teardrinker 

— Talvez a música mais conhecida. Ela fala da tentativa de aliviar uma dor impossível de apagar trazendo a água, as lágrimas e a bebida como imagens recorrentes. O nome pode ser entendido como "aquele que bebe lágrimas", mas não porque gosta do sofrimento e sim porque já vive cercado por ele. 

Gobblers of Dregs

 — Uma das letras mais belas do disco, pode ser traduzido como "aqueles que bebem o resto do barril". É uma metáfora poderosa em que depois de uma perda, parece que restam apenas os resíduos daquilo que antes era abundante, mas mesmo assim, continuamos vivendo.

Gigantium

 — O encerramento. Se ‘Jaguar God’ termina aceitando a morte, aqui o fim é a aceitação da vida. Não porque ela voltou a ser feliz, mas porque continuar vivendo também é uma forma de homenagear quem partiu. É uma das conclusões mais emocionantes da discografia do Mastodon.

Uma mudança sonora mais profunda 

Este é provavelmente o álbum mais progressivo da banda desde “Crack the Skye”, mas com um progressivismo diferente, mudado. Onde antes havia mudanças bruscas, riffs complexos e virtuosismo, agora dá lugar aos pianos, sintetizadores, muitos arranjos de cordas e muito espaço entre as notas. 

O silêncio também passa a fazer parte da música colocando a banda como se tivesse aprendido que o vazio também comunica. E uma interpretação interessante e que chama bastante a atenção é em como o Mastodon foi abandonando, aos poucos, as grandes criaturas mitológicas. 

Nos primeiros álbuns havia Moby Dick, Rasputin, espíritos, montanhas vivas, deuses, mas em “Hushed and Grim” praticamente não sobra nada disso. O "monstro" agora é invisível, é o luto. E justamente por não ter forma, ele acaba sendo o inimigo mais difícil que a banda já enfrentou.

A maturidade definitiva 

Se fosse pra resumir a evolução emocional do Mastodon, diria que ela acompanha uma mudança de perspectiva de cada disco: 

  • Remission enfrenta os instintos.
  • Leviathan enfrenta a natureza.
  • Blood Mountain enfrenta a si mesmo.
  • Crack the Skye enfrenta o desconhecido metafísico.
  • The Hunter enfrenta o acaso da existência.
  • Once More 'Round the Sun enfrenta o cotidiano e o desgaste de continuar vivendo.
  • Emperor of Sand enfrenta a própria mortalidade.
  • Cold Dark Place enfrenta a perda da própria identidade emocional.
  • Hushed and Grim enfrenta a ausência deixada pela morte.

Talvez “Hushed and Grim” seja o trabalho mais maduro do Mastodon até então. É um disco que não tenta oferecer respostas fáceis sobre a morte, mas que em vez disso, mostra que o luto não é algo que se supera definitivamente — ele passa a fazer parte de quem somos e, ainda assim, a vida continua encontrando maneiras de florescer.

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