Sobre tempo, perda e sobrevivência: a epopéia de morte em Emperor of Sand (Mastodon)

Por Felipe Leonel

Emperor of Sand” (2017) é um dos discos mais humanos do Mastodon. O álbum pode até parecer uma fantasia sobre desertos, sultões e divindades antigas, mas esconde algo muito maior em suas notas e frases, o disco fala sobre uma experiência humana profundamente real, descobrir que o tempo de vida é limitado.

Mesmo com suas analogias e metáforas que, muitas vezes, parecem deslocadas de sentido, “Emperor of Sand” é sim sobre a morte, mais especificamente sobre morrer, mas, sobretudo, sobre o que significa continuar vivendo quando você sabe que a morte está caminhando ao seu lado.

Existe nesse disco uma história superficial relativamente simples. Um homem é condenado por um sultão (o "Imperador da Areia") e recebe uma sentença de morte. Em vez de aceitar seu destino, o homem foge para um imenso deserto, tentando escapar da condenação.

Só que o deserto é uma armadilha e não importa para onde ele corra — o sol continua queimando, a areia nunca termina, a água nunca chega e o tempo está sempre acabando. O deserto aqui não é apenas um cenário. Ele representa a própria condição humana. Todos nós atravessamos um "deserto" sabendo que, em algum momento, ele terá um fim.

O verdadeiro vilão não é o sultão

Durante a narrativa, o sultão parece ser o antagonista da história, mas ele funciona apenas como um símbolo. O verdadeiro inimigo aqui é o tempo.

E o tema central do álbum é justamente esse — a percepção de que nossa vida tem um limite, algo que se torna brutalmente concreto diante de uma doença grave. A narrativa do condenado no deserto foi criada para representar essa experiência.

É por isso que existe tanta areia. A areia lembra inevitavelmente uma ampulheta onde cada grão representa um instante que desaparece e o personagem principal nunca consegue recuperar o tempo perdido.

O câncer nunca é citado diretamente

Assim como o álbum “Crack the Skye” (2009), “Emperor of Sand” apresenta uma narrativa metafórica, mas dessa vez, a história representa o drama de pessoas que recebem um diagnóstico de câncer. O disco é todo inspirado pelas experiências de familiares e amigos dos integrantes da banda que enfrentaram a doença. 

E mesmo com esse tema em específico, esse talvez seja o aspecto mais elegante do álbum, o Mastodon nunca escreve — "Esta música é sobre câncer". Em vez disso, cada uma das faixas transforma a doença numa narrativa mitológica onde existe um sol escaldante, uma caminhada, a sede e o desgaste do corpo. Tudo isso funciona como metáfora para quem enfrenta um tratamento longo, como a quimioterapia. 

A jornada emocional das músicas

Embora não seja uma narrativa rígida, existe uma progressão clara de cada música:

  • Sultan's Curse — Apresenta a condenação, onde o personagem descobre que vai morrer. É o choque;
  • Show Yourself — Curiosamente, a música mais acessível do álbum fala justamente sobre permanecer vivo. "Mostre quem você é” é quase um chamado para viver enquanto ainda existe tempo;
  • Precious Stones — Aqui o protagonista tenta encontrar algo que faça a jornada valer a pena. As "pedras preciosas" podem ser entendidas como aquilo que realmente importa quando o tempo começa a acabar: memórias, pessoas, afetos;
  • Steambreather — É uma das faixas mais simbólicas. O vapor da respiração torna-se uma imagem da própria vida, enquanto há fôlego, há existência. Respirar passa a ser um ato quase sagrado;
  • Roots Remain — Uma das músicas mais emocionantes, fala daquilo que permanece depois da perda. As raízes continuam vivas mesmo quando a árvore desaparece;
  • Jaguar God — O encerramento. Aqui o protagonista deixa de fugir e aceita atravessar o desconhecido. O "Deus Jaguar" deixa de ser uma ameaça e passa a ser um guia para a última etapa da jornada.

O deserto como metáfora psicológica

Uma das maiores qualidades do disco é que ele não trata apenas da doença, mas coloca o ouvinte na situação de saber que qualquer pessoa já atravessou algum "deserto", que já passou por momentos de luto, depressão, crise existencial, envelhecimento e, claro, a perda de alguém.

Ainda assim, o álbum nunca diz exatamente do que é esse deserto nem mesmo do que se trata toda essa dor. E é por esse mesmo motivo que acaba funcionando para tantas experiências diferentes.

A mudança em relação aos discos anteriores

Uma forma interessante de entender a discografia do Mastodon é observar como cada álbum encara o desconhecido. Em “Leviathan” o homem enfrenta a natureza, em “Blood Mountain” enfrenta a si mesmo, em “Crack the Skye” tenta escapar da realidade por meio da transcendência e em “Emperor of Sand” aceita que não pode escapar da própria mortalidade.

É uma evolução filosófica. Nos discos anteriores sempre havia uma luta, e aqui não é diferente, mas ela termina em aceitação. E esse talvez seja o detalhe que acaba passando despercebido — O protagonista nunca derrota ninguém. 

Não existe nenhum confronto direto, não existe a morte do Imperador, não existe conquista do deserto, ele não vence a morte. A única transformação verdadeira acontece dentro daquele condenado.

No final, “Emperor of Sand” forma uma espécie de tríptico com “Crack the Skye” e “Hushed and Grim”, onde cada um dos discos se indaga:

  • Crack the Skye — "O que existe além da realidade?"
  • Emperor of Sand — "Como viver sabendo que a morte é inevitável?"
  • Hushed and Grim — "Como continuar vivendo depois que alguém parte?"

Os três falam sobre morte, mas sob perspectivas diferentes — transcendência, finitude e luto. E talvez seja por isso que o álbum seja um dos trabalhos mais maduros do Mastodon. A fantasia do deserto, do sultão e do Deus-Jaguar não existe para esconder a realidade, mas para torná-la mais universal. 

Como resultado de toda a narrativa, “Emperor of Sand” não é sobre um condenado perdido nas areias — é sobre qualquer pessoa que, em algum momento da vida, percebe que o tempo é finito e precisa decidir como caminhar até o horizonte.
  

Um "lado B" emocional de Emperor of Sand

Em suma, “Emperor of Sand” é um álbum sobre enfrentar a morte, já “Cold Dark Place” é um disco sobre conviver com a dor emocional. Embora tenha sido lançado poucos meses depois de Emperor (...), o EP pertence a outro universo. 

“Cold Dark Place” não continua a história do Imperador da Areia nem do Deus-Jaguar. É muito mais íntimo e pessoal. Na verdade, ele é quase um diário do guitarrista Brent Hinds.

O EP compila músicas nascidas principalmente de um período muito difícil da vida do músico, especialmente após o término de seu casamento, onde a ideia central é "o conceito de viver e o quanto dói estar vivo". 

Inicialmente, o material foi pensado como um projeto solo de Brent antes de ser lançado como um EP do Mastodon. E, curiosamente, as músicas vieram de sessões diferentes, 'North Side Star', 'Blue Walsh' e 'Cold Dark Place' foram gravadas durante as sessões de Once More 'Round the Sun (2014) e 'Toe to Toes' veio das gravações de Emperor (...). Mesmo assim, cada uma das faixas soa como uma unidade.

E enquanto Emperor (...) fala de uma dor compartilhada — doença, finitude e mortalidade — Cold Dark Place trata de uma dor profundamente individual. Aqui não há deserto, não há imperadores, não há monstros mitológicos, só existe uma pessoa tentando entender a própria tristeza.

O que é "Cold Dark Place"?

O título "Lugar frio e escuro" não se refere a um lugar físico, mas sim a um estado mental, onde apenas depressão, vazio e luto estão presentes. É aquele espaço psicológico em que alguém continua vivendo, mas sente que perdeu uma parte de si.

O interessante é que no álbum, Brent nunca descreve isso de forma direta, e como em quase toda a obra do Mastodon, o músico prefere trabalhar com imagens.

North Side Star  

— Talvez a faixa mais sonhadora do EP, a música traz elementos de psicodelismo, rock sulista e até folk americano e sua letra transmite uma sensação de procurar orientação. A "estrela do norte" tradicionalmente representa direção, mas aqui ela parece distante, como se o narrador soubesse para onde deveria ir, mas não tivesse forças para chegar.

Blue Walsh

— É uma das composições mais estranhas do Mastodon. Começa quase psicodélica, depois muda completamente, trazendo momentos de groove e momentos de melancolia com trechos que também passam pelo alegre. É como se a própria música imitasse alguém tentando controlar emoções que mudam o tempo inteiro. 

Toe to Toes

— Essa talvez seja a faixa mais importante do EP. É incrivelmente autobiográfica. Aqui, o narrador reconhece que interpretou papéis dos quais não se orgulha e encara suas próprias falhas. É uma das raras vezes em que Brent parece abandonar personagens fantásticos e fala quase diretamente sobre si mesmo. Não existe raiva, mas existe culpa, arrependimento e maturidade.

Cold Dark Place

— Quase uma despedida, a faixa-título não tem uma explosão grandiosa ou um clímax épico. Na verdade, a faixa parece aceitar que algumas dores nunca irão desaparecer completamente e em vez disso, seja preciso aprender a carregar essas dores para toda a vida.

A sonoridade também conta essa história

Outra característica bastante marcante do EP, é a enorme presença de instrumentos e timbres pouco comuns do Mastodon pesado. Brent usa muito lap steel/pedal steel, criando um clima quase fantasmagórico trazendo ao mesmo tempo influências de um blues e psicodelia que até então não haviam sido explorados pela banda. O resultado é um Mastodon muito menos agressivo, mais silencioso e mais vulnerável.

A diferença para Emperor of Sand

É interessante pensar nesses dois lançamentos como dois modos completamente diferentes de lidar com o sofrimento. 

“Emperor of Sand” é a dor transformada em mito, onde a fantasia toma conta da narrativa para disfarçar uma dor real e onde tudo ganha proporções épicas. Já em “Cold Dark Place”, toda essa fantasia desaparece, o sofrimento fica pequeno, humano e doméstico. É alguém sentado sozinho tentando entender por que ainda continua doendo.

“Cold Dark Place” é certamente o trabalho mais "brentiano" da discografia do Mastodon. Enquanto o baterista Brann Dailor costuma escrever a partir de grandes narrativas simbólicas — baleias, montanhas, viagens astrais, desertos — Brent parece partir da experiência íntima e as transforma em paisagens sonoras.

Não é um disco sobre explosões emocionais, mas sobre aquele momento em que o luto ou o fim de um relacionamento já passaram da fase do choque e se transformaram em silêncio.

Se “Crack the Skye” olha para o cosmos, “Emperor of Sand” atravessa o deserto e “Hushed and Grim” encara o luto coletivo, “Cold Dark Place” fecha a câmera e observa apenas um coração tentando sair, pouco a pouco, do seu próprio "lugar frio e escuro".

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