Royal Thunder Discografia

Por Felipe Leonel
Fugindo do que o rock/metal mais tradicional oferece e avançando alguns passos na psicodelia enquanto abrem um espaço mais profundo e mais emocional do que pesado em suas canções, o Royal Thunder se tornou conhecido por misturar vários elementos em sua sonoridade — rock clássico, hard rock, stoner, grunge, sludge e, claro, metal — aprofundando tudo isso em um som denso, emotivo e com um vocal feminino absurdamente marcante.
Formada em Atlanta, Geórgia (EUA), em meados de 2004, a banda ganhou espaço próprio dentro de um cenário musical independente que já tinha tradição no rock pesado, mas que começava a se fragmentar em inúmeras vertentes desde a década anterior. E já no seu início, o Royal Thunder se posiciona de maneira quase instintiva contra os diversos rótulos que pipocaram por todos os lados.
Embora frequentemente associada ao metal, o grupo sempre operou em um território mais ambíguo, onde o peso não era um fim em si mesmo, mas uma consequência emocional e estética dentro de suas composições.

Um dos pontos de convergência da banda sempre foi Mlny Parsonz, vocalista e baixista, cuja presença a frente do microfone se tornaria o elemento mais reconhecível e definidor do grupo. Com sua voz ao mesmo tempo áspera, poderosa e profundamente vulnerável, o Royal Thunder se destacou bem rápido em um meio historicamente dominado por vozes masculinas e abordagens mais agressivas.
E ao contrário de uma postura super performática, típica do metal tradicional, Mlny apresenta uma forma de cantar quase confessional, com narrativa e que enfrenta as próprias emoções internas sem filtros, moldando não apenas o som, mas também a identidade da banda.
Em seus primeiros anos, o Royal Thunder passou por algumas mudanças de formação, algo comum em bandas em processo de amadurecimento artístico. E foi nesse período inicial que a banda se mostrou em constante evolução, um momento marcado por ensaios intensos, apresentações locais e uma busca constante por uma linguagem sonora própria.
Nesse período, o grupo absorveu influências que iam do rock clássico ao grunge, passando por stoner rock, psicodelia setentista e até mesmo doom, mas sem se comprometer totalmente com nenhum desses territórios. O resultado era um som orgânico, pesado, porém carregado de melodia e espaço.
O grande marco fora do underground

Mesmo com seu debut lançado, o EP autointitulado de 2009, o primeiro grande marco do grupo aconteceu de fato durante o lançamento do álbum “CVI”, em 2012. O disco por si só funciona quase como um cartão de visitas cru e honesto. A produção não tenta suavizar arestas, e as composições apostam em estruturas que crescem de maneira lenta, criando tensão emocional antes de liberar o peso dos riffs. “CVI” apresenta uma banda que ainda soa inquieta, mas já extremamente segura de sua identidade.
As letras exploram temas como deslocamento, dor emocional, memória e conflito interno, sempre com uma carga simbólica forte, mas nunca excessivamente abstrata. A recepção do álbum foi bastante positiva e ajudou a colocar o Royal Thunder no radar da cena underground e alternativa de outros cantos do mundo, especialmente entre ouvintes que buscavam algo além do metal técnico ou do stoner tradicional.
Com o lançamento, a banda passou a circular mais intensamente em turnês, dividindo palcos com nomes consagrados e consolidando uma reputação de performances ao vivo bastante intensas e emocionalmente exaustivas.
Amadurecimento, equilíbrio e peso

Esse amadurecimento encontrou seu ponto alto no celebrado “Crooked Doors”, lançado em 2015. O disco é frequentemente apontado como o trabalho definitivo da banda, não apenas por sua coesão sonora, mas pela maneira como equilibra peso, melodia e atmosfera. E é nesse disco que a banda soa mais confiante, mais expansiva e mais disposta a explorar silêncios, dinâmicas e variações emocionais.
Em “Crooked Doors” as canções transitam entre momentos quase etéreos e explosões densas, sempre sustentadas pela interpretação vocal de Mlny, que se torna ainda mais expressiva. O álbum também marca uma consolidação temática do grupo com letras que lidam com perda, arrependimento, amadurecimento e relações humanas de forma direta, mas poética, sem romantização do sofrimento e sim com enfrentamento.
É com “Crooked Doors” que a banda ganha maior reconhecimento, ampliando tanto seu alcance musical quanto midiático, em suma, atraindo a atenção da crítica especializada e de um público mais amplo dentro do rock alternativo e do metal emocional.
Melancolia, groove e MUITAS camadas

Já em 2017, é lançado o álbum “Wick”, um trabalho que mantém a base emocional e pesada dos discos anteriores, mas que soa mais lapidado e introspectivo. Aqui, a banda parece menos interessada em provar algo e mais focada em explorar nuances.
Os riffs pesados continuam presentes, mas há mais espaço para climas melancólicos, grooves arrastados e construções menos óbvias. “Wick” é um disco que cresce com o tempo, exigindo escuta atenta e disposição para mergulhar em suas camadas.
Hiato e criatividade
Após o período de lançamento e de uma turnê de divulgação do álbum, a banda entra em um intervalo longo. Parte desse hiato acaba se devendo a questões pessoais dos membros, mudanças internas e, principalmente, à necessidade de reconstrução emocional e artística.
Todo esse processo de reconstrução culmina em “Rebuilding the Mountain”, lançado em 2022. E o título não é acidental, o álbum reflete uma banda que passou por desgaste, quedas e reinvenções. A produção também é mais limpa, mas sem perder a intensidade característica. As músicas carregam uma sensação de sobrevivência, resiliência e reflexão madura sobre o passado e o presente.
Experiência emocional através da música
Ao longo de sua trajetória, o Royal Thunder nunca chegou a alcançar os grandes holofotes midiáticos ou mesmo grandes sucessos radiofônicos. Seu impacto real está justamente no contrário, na capacidade do grupo de criar conexões profundas com um público que busca música pesada como experiência emocional e não apenas como agressão sonora. A banda ocupa um espaço singular entre o rock pesado, o metal alternativo e a psicodelia, sendo sempre guiada pela honestidade artística.
Hoje, contando com Mlny Parsonz no baixo e vocal, Josh Weaver na guitarra e Evan Diprima na bateria, o Royal Thunder é visto como uma banda cult, respeitada por sua integridade, por sua sonoridade fora dos padrões e pela força expressiva de suas composições. Sua história não é marcada por explosões repentinas de fama, mas por um crescimento consistente, orgânico e profundamente humano — algo cada vez mais raro em muitos cenários musicais atuais.




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