A fantasia mística e psicológica de "Crack the Skye" (Mastodon — 2009)

Por Felipe Leonel

Sem sombra de dúvidas o disco mais conceitual, emocional e “literário” do Mastodon, “Crack the Skye” é o álbum que melhor trabalha suas letras e que traz temáticas que giram em torno de perda, espiritualidade, viagem astral, ruptura entre vida e morte e reconciliação interior, tudo costurado numa narrativa simbólica e em forma de fantasia mística.

Lançado pelos selos Reprise, Sire e Relapse Records em 24 de março de 2009, há 17 anos, “Crack the Skye” foi gravado entre os meses de abril e setembro de 2008, no estúdio Southern Tracks, em Atlanta (EUA), com produção de Brendan O’Brien (conhecido por trabalhos com Pearl Jam e Bruce Springsteen). Além de suas temáticas líricas, musicalmente o disco apresenta um som voltado pro metal progressivo e com influências psicodélicas.

O álbum traz os membros originais do grupo contando em sua formação com Troy Sanders no baixo e vocais, Brent Hinds na guitarra, vocais e banjo, Bill Kelliher nas guitarras base e solo e Brann Dailor na bateria e, pela primeira vez nos vocais e backing vocais. O disco também conta com participações adicionais que incluem teclados e Mellotron de Rich Morris e vocais convidados de Scott Kelly na faixa-título.

Fantasia mística em nível psicológico

Utilizando luto e perda como tema central, “Crack the Skye” é fortemente influenciado por duas perdas reais dos membros da banda, a morte da irmã mais velha do baterista Brann Dailor, sendo o “Skye” do título uma referência direta ao nome dela, e a do pai do guitarrista Brent Hinds. Em ambos os casos, o sentimento atravessa todo o álbum.

Essas temáticas são divididas por todas as faixas trazendo saudade, culpa, vazio, tentativa de reconexão e medo da morte de forma pesada e bastante dolorosa, mas tudo isso em linguagem simbólica, nunca necessariamente literal.

Viagem astral e dissociação também são partes extremamente importantes na “trama”, apresentadas na figura de uma personagem central que rodeia todo o disco, um garoto que sai do próprio corpo por projeção astral passando por diversas fases de uma vida levando o personagem a uma fuga da dor, escapismo emocional, uma tentativa de reencontro espiritual e a sensação de não pertencer mais ao mundo físico. 

Em meio a essa viagem astral, o espírito do garoto acaba viajando no tempo, especificamente para uma Rússia czarina do início do séc. XX e entrando no corpo de Rasputin (figura histórica russa mística e polêmica) onde o poder espiritual, a corrupção, a loucura, a fé distorcida e até mesmo o abuso de influência se tornam o mote dessa pequena história. Isso acaba funcionando como crítica à ideia de “iluminação” sem equilíbrio.

Seguindo por essa narrativa, o disco apresenta uma crise existencial flertando com a ideia de “estou vivo, mas não me sinto vivo”, enquanto leva o personagem a uma jornada de perda, aprisionamento entre planos e o desaparecimento de sua própria realidade. E a representação de uma depressão profunda e de um luto não resolvido se mostra nas figuras de morte, limbo e retorno. 

Nos últimos momentos do álbum, especialmente em “The Last Baron”, surge a aceitação, amadurecimento, retorno ao corpo e paz parcial. Não é exatamente um final “feliz”, mas é honesto, é a dor que não some, mas vira parte da identidade de quem o personagem do garoto realmente é. É sobre aprender a viver com a perda. 

Já em relação à música em si, o som acompanha temas bastante progressivos, psicodélicos, épicos e muito melódicos, onde a confusão mental, a dissociação e a vulnerabilidade são partes complementares liricamente essenciais dessa jornada interior e do encontro de si mesmo. Nada aqui é gratuito sendo embalado numa narrativa fantástica. 

Ainda que não seja, de fato, um disco conceitual em sua forma mais tradicional, “Crack the Skye” apresenta uma história grandiosa sobre como é perder alguém, mas também sobre como é perder a si próprio junto, sobre tentar fugir disso, sobre quase desaparecer no processo e sobre como voltar transformado dessa jornada.

Uma reconstrução emocional faixa à faixa

1. Oblivion

Já na primeira faixa, e sem nenhuma enrolação, é onde o tema de perda de identidade, dissociação e fuga dão início, é aqui o ponto de partida para tudo. E é nessa faixa que surge o personagem principal, alguém que sofre tanto que começa a “sair de si mesmo”. 

A música traz discussões sobre ansiedade, luto mal resolvido, sensação de sufocamento e vontade de desaparecer. E não à toa, é onde a “viagem astral” se apresenta como metáfora de escapismo.

2. Divinations

Caindo de cabeça em temas de espiritualidade, destino e busca de um sentido próprio, “Divinations” retrata o jovem depois de “sair do corpo” tentando entender o que está acontecendo.

A música retrata a fase em que a pessoa tenta racionalizar o sofrimento tentando dar significado à dor, algo como “se isso aconteceu comigo, deve ter um motivo”, mas também fala sobre presságios, visões e sinais. 

3. Quintessence

Entrando em um campo mais abstrato, como essência da vida (título da música - o quinto elemento), conexão espiritual e vazio , a faixa fala sobre transcendência, vazio existencial, perda de referência e busca por algo maior. 

É nesse momento em que o personagem começa a se afastar demais da realidade, onde a tudo já não é mais fuga, é efetivamente uma quase dissolução de qualquer realidade. 

4. The Czar

Divida em quatro “capítulos” (I. Usurper / II. Escape / III. Martyr / IV. Spiral), “The Czar” é a faixa com maior profundidade e uma dose grande de estranheza já que é aqui que o conceito do disco vai ainda mais além. 

Com os temas poder, corrupção e loucura, a temática dessa vez é o centro conceitual do álbum e o evento-chave dessa história com o espírito do garoto entrando no corpo de Rasputin enquanto o personagem cai em queda mental completa, em colapso psicológico profundo. 

Em suma Rasputin simboliza misticismo, manipulação, ego, fé distorcida e poder sem equilíbrio representados em cada capítulo, é a tomada do controle e da perda de limites, de uma tentativa de fuga das consequências de seus próprios atos. 

5. Ghost of Karelia

Uma das faixas mais diretas (“Karelia” é uma região histórica na Rússia ligada a diversas guerras) a faixa tem como tema principal a memória, um fantasma emocional e trauma, onde o “fantasma” é uma lembrança que traz culpa e saudade através do trauma. A letra retrata uma pessoa assombrada pelo que perdeu representando o luto que nunca vai embora totalmente.

6. Crack the Skye

O coração emocional do disco, a faixa é o rompimento da barreira entre vida e morte, uma saudação a despedida e uma conexão espiritual eterna com quem se foi.  É sobre tentar falar com quem se foi, sentir sua presença espiritual e não aceitar a separação, mas sem deixar que o fluxo da vida e da morte sigam seus próprios caminhos. A faixa é diretamente ligada à irmã do Brann e a música mais íntima do álbum.

7. The Last Baron

O fechamento épico do álbum, a faixa traz como tema principal o retorno, a aceitação e a maturidade emocional colocando o personagem do garoto de volta ao seu corpo enquanto aceita a experiência astral de viagem no tempo e entende que a dor faz parte da vida. 

O encerramento, de fato, não é um final feliz, mas sim um final real onde não existe fuga das consequências da vida. A música vai e volta em sua narrativa enquanto representa recaídas, lembranças, avanços e regressos, mas se fecha exatamente como um luto real.

Os quatro elementos da natureza 

Justamente o ponto em que o Mastodon fecha um ciclo e muda de patamar artístico, “Crack the Skye” traz uma evolução sonora enorme em relação aos discos anteriores sendo o “elemento da natureza”, apresentado dentro da lógica da banda, o “éter/ar/espírito”, o elemento que representa a mente, a alma e a transcendência. 

Nos primeiros álbuns, esses elementos também surgem, sendo “Crack the Skye” o fechamento de um ciclo elemental. “Remission” (2002) é representado pelo elemento fogo, com raiva, destruição e impulso nos pontos mais claros do disco. “Leviathan” (2004) é a água, um disco onde uma primeira tentativa de criar um tema conceitual surge, sendo oceano, força natural e o livro Moby Dick a força motriz do disco. Em “Blood Mountain” (2006) o elemento terra é a grande estrela, com suas letras focando em temas que falam sobre montanhas, jornada física e sobrevivência.

“Crack the Skye” também tem uma progressão muito clara sonoramente, com a banda começando a pensar “em álbum” como algo mais completo e complexo e não somente em músicas isoladas. Seu som traz melodias voltadas pro progressivo, com o emocional sempre em destaque e até mesmo com elementos cinematográficos em sua narrativa. 

Em relação aos trabalhos anteriores, “Crack the Skye” é menos agressivo, menos barulhento, com mais vocais limpos, mais melodias, músicas longas, mudanças de andamento e partes instrumentais mais pungentes onde tudo conversa entre si. Esse disco é o momento em que o Mastodon aprende a falar de sentimentos sem perder peso.

A relação com os discos posteriores

Depois de “Crack the Skye”, a banda nunca mais voltou a ser a mesma e os elementos naturais apresentados até então deixam de ser importantes em cada um dos discos. Ainda assim, os álbuns sequenciais conseguem trazer força sem a necessidade de uma temática por si só.

Em “The Hunter” (2011) as músicas soam mais simples, diretas e divertidas, “Once More ’Round the Sun” (2014) mistura prog com sludge e metal dando o tempero do disco, “Emperor of Sand” (2017) é uma tentativa de equilíbrio onde o conceito sobre câncer e mortalidade são o mote principal, e “Hushed and Grim” (2021), um álbum que mostra superação do luto e maturidade com pitadas de melancolia mostrando como a banda cresceu e soube entender seu próprio som.

Uma realidade muito mais interessante 

Criada pelo artista Paul Romano, colaborador de longa data da banda A arte de capa de Crack the Skye foi inspirada no simbolismo místico e etéreo, refletindo o conceito do álbum sobre espiritualidade, planos astral e o tema do “éter” como elemento transcendente. A arte da edição limitada do disco traz um tunnel book (efeito tridimensional) e escondia uma foto da irmã de Brann Dailor, Skye. 

Já em seu lançamento, “Crack the Skye” entrou na 11ª posição da Billboard 200 dos EUA, vendendo cerca de 41 mil cópias na primeira semana. Debutou em 19º lugar nas paradas australianas e vendeu mais de 200 mil cópias somente nos EUA até o ano seguinte, tornando o álbum um dos maiores sucessos comerciais do grupo. 

O disco também foi amplamente aclamado pela crítica. No Metacritic, "Crack the Skye" alcançou a média de 82/100 em críticas especializadas, indicando “aclamação universal”. No site, críticos também destacaram o álbum como o mais ambicioso e coeso que os trabalhos anteriores da banda, combinando peso, melodias complexas e uma forte identidade progressiva. 

No ano seguinte ao lançamento,“Crack the Skye” recebeu vários prêmios e honrarias importantes tendo sido eleito o álbum nº 1 de 2009 pela revista Metal Hammer e foi colocado no Top 10 do mesmo ano por várias publicações como Time, Classic Rock e Kerrang! vencendo também o Metal Storm Award de Melhor Álbum de Metal Alternativo em 2009.

Em 2014, o disco foi listado como um dos melhores álbuns progressivos de todos os tempos pela revista TeamRock. Uma edição de 15° aniversário com material extra foi anunciada para 2024, incluindo remasterização e versões instrumentais. Ainda hoje, o disco é frequentemente citado por fãs e críticos como o ponto de virada criativo da banda, unindo metal técnico, psicodelia e narrativa conceitual aprofundada. 

Em suma, “Crack the Skye” é um marco na carreira do Mastodon, uma obra que combina emoção pessoal profunda com ambição musical progressiva, ganhando reconhecimento crítico, sucesso nas paradas e um lugar duradouro no cânone do metal moderno.

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