Stoner Rock: Quando o peso começou a ficar diferente


Felipe Leonel 

No final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o rock começava a explorar territórios cada vez mais pesados e a psicodelia já havia ampliado as possibilidades de distorção e experimentação, enquanto o blues rock e o hard rock tornavam os riffs mais agressivos e as apresentações mais intensas. 

Ao mesmo tempo, algumas bandas passaram a desacelerar as músicas, aumentar o peso das guitarras e explorar repetições que criavam uma sensação quase hipnótica.

O que existia naquele momento era uma espécie de terreno fértil, formado por diferentes cenas e experiências musicais que, mesmo sem seguir um plano comum, acabariam fornecendo boa parte do vocabulário utilizado por uma centena de gêneros diferentes posteriormente, entre eles, o Stoner Rock.

É nesse período que aparecem nomes como Black Sabbath, Blue Cheer, Pentagram, Sir Lord Baltimore, Leaf Hound, Hawkwind, entre outros, onde cada um deles explorava uma parte diferente dessa transformação.

Alguns tornavam o rock mais pesado, outros mergulhavam na psicodelia, enquanto outros experimentavam com riffs, volume e estruturas repetitivas. E mesmo o stoner ainda estando bem longe de existir, alguns de seus primeiros ingredientes já estavam sendo colocados nesse mesmo caldeirão.

Black Sabbath e o nascimento do riff pesado

Se tem uma banda que está no centro de qualquer conversa quanto às origens do stoner rock (e de mais uma cacetada de outros gêneros musicais), essa banda certamente é o Black Sabbath, mais especificamente o terceiro disco da carreira do grupo. 

Em Master of Reality (1971), peso, riffs arrastados e um baixo ainda mais proeminente do que antes, aparecem de maneira especialmente marcante, trazendo músicas que não precisam correr para transmitir força, assim como pequenas variações de ritmo e texturas sonoras que parecem quase hipnóticas.

Blue Cheer e o volume levado ao limite

E se o Black Sabbath ajudou a estabelecer o peso do riff, o Blue Cheer explorou outra possibilidade — o peso do próprio som. Talvez o melhor exemplo da banda esteja em Vincebus Eruptum (1968), um disco que levou a distorção, o volume e a agressividade do rock a níveis incomuns para o período.

O álbum mistura blues, psicodelia e hard rock em uma gravação deliberadamente áspera, com guitarras saturadas e uma bateria que parece disputar espaço com as cordas. É um disco que mostra que a psicodelia podia ser pesada, o blues podia ser agressivo e uma guitarra podia ocupar praticamente todo o espaço de uma música.

Pentagram e o underground levado a sério

Nascida e criada nos bares estadunidenses durante o início dos anos 1970, o Pentagram não chamou atenção do grande público ou das grandes gravadoras logo de cara, mas foi capaz de angariar fãs locais bastante ativos e atentos ao que o grupo estava fazendo. 

Peso, distorções frenéticas e vocais fora do padrão (ruim pra muitos), foi com seus shows frenéticos pelo underground que ajudaram a cravar a memória da banda em muitos fãs. E com o lançamento de Pentagram (1985), essa memória se tornou influência e uma banda que existiu praticamente à margem do mercado, acabou contribuindo na criação de um gênero inteiro.

Sir Lord Baltimore e o peso do hard rock

Enquanto algumas bandas estavam mergulhando seu som em atmosferas psicodélicas e progressivas, o Sir Lord Baltimore tornava o hard rock ainda mais pesado e agressivo. Lançado em 1970, Kingdom Come é frequentemente lembrado por seus riffs pesados, vocais agudos, bateria acelerada e guitarras distorcidas, se tornando uma peça importante dentro do quebra-cabeça do Stoner.

O disco não apresenta exatamente aquela lentidão que mais tarde seria associada ao stoner, mas carregava uma característica fundamental — a guitarra ocupava o centro da música e podia ser simultaneamente pesada e extremamente presente, elemento que ajudou a ampliar o que uma banda de rock pesado poderia fazer com seus instrumentos.

Leaf Hound e a psicodelia que ficou pesada demais

O Leaf Hound representa outra vertente importante dessa transformação do rock no início dos anos 1970. Formada na Inglaterra a partir da cena de blues rock, a banda também combinava psicodelia e hard rock, mas fazia isso com uma intensidade que a colocava entre os sons mais pesados do período.

Essa mistura aparece com força em Growers of Mushroom, gravado no fim dos anos 1960 e lançado em 1971. O álbum apresenta guitarras carregadas de distorção, vocais agressivos e longas passagens instrumentais, mantendo ao mesmo tempo a liberdade e o espírito improvisado herdados da psicodelia ao mesmo tempo que acrescenta espaço, repetição, peso e agressividade.

Hawkwind e a viagem que faltava

Até aqui, boa parte das bandas citadas ajudou a construir o lado pesado, distorcido e bluesístico do que mais tarde seria associado ao stoner. Mas o Hawkwind acrescenta outra dimensão importante — a ideia de que o rock também poderia ser uma experiência espacial, repetitiva e hipnótica levando ao extremo o termo stoner (chapado).

Dois exemplos bastante significativos para essa construção foram In Search of Space (1971) e Doremi Fasol Latido (1972) que mostram bem essa característica, onde guitarras, baixo e bateria, além de elementos eletrônicos, eram colocados para trabalhar juntos para criar músicas que parecem estar sempre avançando, mesmo quando permanecem sobre uma mesma ideia durante vários minutos.

Em vez de colocar o riff apenas a serviço de uma música tradicional, a banda muitas vezes utilizava a repetição para criar uma sensação de movimento contínuo, quase como se a música estivesse sendo construída para transportar o ouvinte para outro lugar.

Além do esqueleto - a formação muscular do stoner

Se a primeira geração forneceu os ingredientes, a segunda começou a descobrir o que acontecia quando eles eram misturados de maneira consciente. Mesmo assim, esse caminho não foi direto. 

Entre o rock pesado dos anos 1970 e o surgimento do stoner nos anos 1990, os anos 1980 acabaram sendo uma década bastante importante na qual esse legado todo continuou circulando pelo underground e encontrou novas formas de expressão.

O doom foi especialmente importante nessa transição. Ao desacelerar ainda mais os riffs e enfatizar atmosferas sombrias, bandas daquela década ajudaram a preservar uma maneira de fazer música pesada que estava distante das tendências dominantes do metal. 

Paralelamente nos EUA, diferentes cenas começaram a desenvolver suas próprias interpretações dessa herança e quando o heavy metal começou a se diversificar, a influência do rock setentista não desapareceu, mas simplesmente deixou de estar no centro do mercado musical passando a sobreviver em cenas mais específicas.

No underground, o Saint Vitus talvez seja o exemplo mais evidente dessa continuidade. A banda levou a herança sabbathiana para um território ainda mais lento e sombrio, ajudando a estabelecer algumas das bases do doom metal americano.

Trouble, por outro lado, incorporou elementos psicodélicos e religiosos ao seu doom metal, mostrando que aquela tradição poderia continuar se transformando sem abandonar os riffs pesados. Já The Obsessed, manteve uma ligação particularmente forte com o blues e com o hard rock, ajudando a conectar ainda mais o doom, o metal e o groove.

Uma viagem ao deserto para chapar e escutar música

Enquanto o doom desenvolvia uma de suas próprias ramificações, outra história começava a acontecer na Califórnia, especialmente na região de Palm Desert, onde músicos passaram a criar uma cena relativamente isolada dos grandes centros da indústria musical. 

Sem depender de clubes tradicionais, essas bandas organizavam apresentações em locais improvisados, literalmente no deserto, incluindo os famosos encontros conhecidos como Generator Parties, nos quais geradores a combustão forneciam a energia necessária para os equipamentos.

O ambiente também favorecia a experimentação, já que as bandas podiam tocar por horas e horas, improvisar sem medo e desenvolver músicas sem a mesma preocupação que formatos comerciais ofereciam. 

A diferença agora era importante — já não se tratava apenas de tocar música pesada. As influências acumuladas durante duas décadas começavam a formar uma linguagem própria. E quando diversas outras bandas começaram a explorar essas possibilidades, o stoner deixaria de ser apenas uma coleção de características herdadas do passado para finalmente começar a soar como algo único e original.

Jovens ébrios e o nascimento do desert rock

Kyuss é certamente a banda que conseguiu transformar essa herança em algo com identidade própria. Surgido no deserto da Califórnia, o grupo incorporou peso, psicodelia, blues e improvisação a uma sonoridade moldada descaradamente pelo ambiente em que seus integrantes viviam.

A música de Kyuss carregava elementos reconhecíveis do rock pesado, mas a combinação entre eles era diferente. Riffs graves, muito fuzz, groove e improvisação criaram uma sonoridade pesada sem depender exclusivamente da velocidade ou da agressividade típica de boa parte do metal da época.

Com Blues for the Red Sun (1992) e Welcome to Sky Valley (1994) a banda aprofunda ainda mais essa identidade, ganhando maior espaço na mídia e deixando que gênero emergente passasse de apenas uma mistura de influências para se tornar a própria influenciadora.

A transformação do riff em transe sonolento

Se Kyuss ajudou a mostrar que o rock pesado podia ganhar uma nova identidade, o Sleep levou outra parte dessa herança para um extremo completamente diferente. O trio californiano absorveu a tradição do Black Sabbath e do doom metal e percebeu que não era necessário acelerar, variar constantemente os riffs ou preencher cada espaço da música. Às vezes, quanto mais tempo uma ideia permanecesse, maior poderia ser seu efeito.

A música de Sleep nasce diretamente dessa tradição. O peso do Black Sabbath está presente, assim como a lentidão e a atmosfera desenvolvidas por bandas como Saint Vitus. Só que Sleep reduz ainda mais a velocidade e coloca o riff no centro absoluto da composição.

Lançado em 1992, Sleep's Holy Mountain é um dos discos fundamentais dessa transformação, colocando a música coexistindo em torno de um único riff. Já Dopesmoker (1998) levou essa ideia a um extremo quase absurdo, transformando a repetição em princípio absoluto, estendendo uma única jornada musical por uma duração muito superior à de uma canção convencional.

Monstros Magnéticos e o lado psicodélico do stoner

O Monster Magnet mostrou que o stoner também podia olhar diretamente para a psicodelia e para o space rock. E foi sob influência do Hawkwind que a banda absorveu toda aquela combinação adicionando uma quantidade considerável de peso, fuzz e elementos do heavy metal.

O resultado não era exatamente a mesma viagem espacial dos anos 1970, mas agora passava por uma camada muito mais espessa de distorção. Essa ideia ficou bastante evidente em Spine of God (1991) e ainda mais clara em Dopes to Infinity (1995) que, em vez de construir sua identidade exclusivamente em torno da lentidão, os discos utilizam diferentes velocidades, estruturas e  texturas. 

Algumas passagens de ambos os álbuns são bem mais pesadas e diretas, em outras o som parece mergulhar em improvisações, uma variedade sonora que ajudou a ampliar o que o gênero poderia oferecer deixando de lado uma possível “fórmula” e se tornando uma linguagem capaz de comportar diferentes interpretações de forma completamente original.

Vilão, bigode, balde e rock'n'roll (mas muito mais RnR)

Doom e psicodélica podem até ser dois elementos importantes pro stoner, mas não para o Fu Manchu que seguiu por uma direção diferente. A banda trouxe para dentro do estilo o elemento que deu origem a tudo, o rock'n'roll por si só, e junto com ele músicas descontraídas e diretas aproximando o peso dos seus riffs de elementos do garage rock, punk, surf music e hard rock.

Com uma sonoridade menos preocupada com atmosferas sombrias e mais interessada em groove, riffs simples e energia, a guitarra aqui continua pesada e carregada de fuzz, mas as músicas possuem uma estrutura com refrões marcantes e uma forte sensação de rock clássico.

Profundamente ligada à cultura californiana, entre os principais temas ali do começo, carros, skate, surf, estrada e contracultura apareciam tanto nas letras quanto na estética da banda, criando uma relação muito particular entre música e estilo de vida. 

E No One Rides for Free (1994) acabou sendo o exemplo máximo disso, mostrando uma diversidade da qual o stoner era capaz de ser muito mais do que apenas uma combinação de influências, mas sim uma linguagem própria capaz para abrigar diferentes maneiras de tocar, escrever e viver o rock pesado. 

Chapados do mundo todo… Uni-vos! 

Ao longo dos anos 1990, diferentes músicos chegaram ao stoner por caminhos distintos e a lista de bandas novas passou a crescer anualmente, fosse através do doom, psicodelia, space rock, garage, metal ou qualquer outro gênero que pudesse ser imaginado.

E o mais legal dessas misturas todas, é que nenhuma dessas bandas, de fato, soavam iguais, suas diferenças ajudam a demonstrar que o gênero já havia encontrado uma identidade suficientemente forte para comportar interpretações distintas.

O riff pesado continuava sendo fundamental, mas agora podia aparecer acompanhado por diferentes velocidades, atmosferas e referências. O fuzz, a pedra fundamental do gênero,  permanecia presente, mas podia servir tanto a uma música lenta e hipnótica quanto a um rock mais direto. A psicodelia e o groove podiam ser um só fazendo o ouvinte viajar sem mover, mas com estilo. 

E se tudo isso já era possível lá na década de nascimento do gênero, imagina depois…

Quando o stoner começou a descobrir que podia falar várias línguas 

Desde seu nascimento, o stoner já havia encontrado uma identidade própria, mas, convenhamos, identidade não significa estagnação. Enquanto outras bandas estabeleciam as características que seriam associadas ao gênero, uma série de grupos começou a experimentar diferentes possibilidades. 

Alguns deles estavam pelos EUA desde os primeiros anos da cena, outros estavam espalhados pelo país e encontravam maneiras completamente diferentes de trabalhar sua música com as mesmas influências, e alguns estavam fazendo tudo isso e mais um pouco a milhares de quilômetros de Palm Desert.

E é aí que o stoner começava a deixar de ser apenas um som e começa a se transformar em uma linguagem.

Clutch - metendo marcha enquanto escapa do rótulo

Poucas bandas representam tão bem a dificuldade de colocar o stoner dentro de uma única categoria quanto Clutch. Formado em Maryland no início dos anos 1990, o grupo surgiu praticamente junto com a consolidação da primeira geração do gênero, mas nunca se limitou a reproduzir sua fórmula.

O Clutch absorveu o peso dos riffs, o groove e parte da atitude que circulava pelo rock pesado americano daquela época, mas também trouxe para a mistura referências de blues, funk, punk, southern rock e hard rock.

Quando Clutch começou a lançar seus primeiros trabalhos, o stoner ainda estava encontrando sua identidade. A banda fazia parte daquele mesmo ambiente de rock pesado americano que estava sendo alimentado por grupos como Kyuss, mas sua trajetória rapidamente tomou outros caminhos.

O peso continuou presente, porém acompanhado por uma preocupação cada vez maior com ritmo, groove e dinâmica. Essa liberdade fica particularmente evidente em Blast Tyrant, de 2004, reunindo riffs pesados e uma forte presença do groove com elementos de hard rock, blues e southern rock, mostrando como o grupo já havia desenvolvido uma identidade própria.

Clutch, portanto, não precisou abandonar suas raízes para se afastar do rótulo, a banda simplesmente descobriu que era possível levar aquelas raízes para outros lugares.

Karma to Burn - e se os riffs não precisassem de voz?

Se o Clutch mostra como o stoner podia se misturar a outras tradições, o Karma to Burn questionava uma coisa ainda mais básica — o que acontece quando retiramos o vocal da equação?

Formada em West Virginia no início dos anos 1990, a banda nasceu como uma proposta instrumental, mas a gravadora exigiu a presença de um vocalista para o primeiro álbum, levando o grupo a trabalhar com Mike West e lançar seu disco de estreia em 1997.

A experiência não duraria muito e o K2B retornaria à proposta instrumental pouco depois encontrando justamente nessa ausência uma de suas características mais marcantes.

E a decisão de permanecer instrumental mudou a maneira como a banda precisava construir suas músicas. Sem um vocal para conduzir a melodia, a guitarra precisava assumir a responsabilidade e dessa ideia nasceu Wild, Wonderful Purgatory, de 1999, um dos discos fundamentais para entender sua identidade instrumental.

As músicas são pesadas, diretas e construídas em torno de riffs que funcionam quase como personagens. Guitarra, baixo e bateria estabelecem uma conversa constante, enquanto as estruturas se desenvolvem sem depender de um cantor para indicar ao ouvinte para onde olhar.

Quando o stoner atravessou o oceano e encontrou… cowboys e alienígenas!

Essa terceira transformação do stoner é diferente das duas anteriores. Aqui, não se trata apenas de mudar a relação do gênero com sua composição ou misturar com outros estilos, com os belgas do Cowboys & Aliens, mostrar que aquela linguagem podia sair de seu lugar de origem e encontrar novas cenas do outro lado do Atlântico era mostrar que música não tem língua fixa.

Formado em Bruges no mesmo período em que o stoner americano começava a consolidar sua identidade, o C&A age especialmente dentro desse cenário porque consegue trazer uma penca de outras influências pro estilo sem perder as características que fazem do stoner o que ele é.

Indo pela mesma rota europeia que o thrash metal, mas por caminhos diferentes, o resultado que se tem aqui não pode ser entendido como uma simples cópia europeia do que vinha acontecendo na Califórnia. 

Existe aqui a incorporação dos elementos que fazem o stoner ser o que é, mas com aquele DNA do rock europeu pesado do hard rock e do heavy metal. E A Trip to the Stonehenge Colony (2000) exemplifica muito bem isso, todos os elementos do stoner estão lá, mas não estão sozinhos, existe junto uma identidade de fora.

E o mais legal disso tudo é que quando uma linguagem musical consegue viajar para outro país, para outro continente, e encontrar músicos dispostos a reinterpretação, tudo deixa de pertencer exclusivamente aos seus criadores. E nesse ponto que o stoner começava, enfim, a se tornar uma linguagem internacional.

A existência de C&A também ajuda a marcar uma mudança importante na história do gênero. Até então, era possível contar o nascimento do stoner principalmente através de uma árvore genealógica americana, mas a partir desse momento, essa árvore começa a ganhar novos galhos a todo momento.
 

O stoner ganha novas formas, cores e sons

Até o fim dos anos 1990, o stoner já havia mostrado pro que vinha junto com sua abertura total e completa para receber novas interpretações sem medo de ser feliz. Mas foi a partir da virada para os anos 2000, com o gênero já estabelecido, que a coisa toda passou por uma mudança inesperada, estranha e muito bem-vinda.

Com o crescimento do underground e a circulação cada vez maior de discos, shows e referências entre diferentes cenas, o stoner começou a entrar em contato com outras vertentes do rock e do metal. Algumas bandas preservaram os riffs, o fuzz e o groove praticamente intactos, mas muitas outras passaram a incorporar elementos do sludge, progressivo, punk, hardcore e até música alternativa.

Essa transformação ajudou a afastar o gênero de uma definição rígida já que uma banda podia continuar sendo reconhecida como stoner mesmo quando já não apresentasse todos os elementos associados à primeira geração.

O resultado foi uma espécie de expansão, onde o stoner deixou de ser um destino musical com regras relativamente claras e passou a funcionar como um ponto de partida. E é aqui que a história fica particularmente interessante. Em vez de seguir uma única direção, o stoner passa a se dividir em vários caminhos.

Orange Goblin


— Embora tenha surgido ainda nos anos 1990, o grupo atravessou os anos 2000 como uma das principais referências da vertente britânica do stoner combinando doom, heavy metal, hard rock e punk e mantendo sempre o riff como centro da composição. The Big Black (2000) e Coup de Grace (2002) mostram justamente essa transição para um som mais direto e agressivo.

Dozer 


— Uma das bandas responsáveis por estabelecer a Suécia como um dos grandes centros europeus do stoner. O grupo apresenta uma energia mais próxima do garage e do hard rock com o seu Call It Conspiracy (2003) é um dos discos fundamentais dessa fase.

Truckfighters 


— Um caso curioso, uma banda sueca fazendo um som profundamente inspirado pelo stoner californiano dos anos 1990. Gravity X (2005) se tornou seu grande cartão de apresentação ajudando o grupo a mostrar que o “som do deserto” podia existir sem o deserto.

Colour Haze 


— Stoner psicodélico europeu que combinou blues, hard rock e psicodelia, dando enorme importância à improvisação e ao desenvolvimento instrumental. Tempel (2006) é um dos melhores exemplos dessa abordagem. A banda também é importante porque ajudou a transformar a Europa continental em um dos grandes pólos do stoner e do heavy psych.

The Sword 


— Aproximando novamente o stoner do heavy metal tradicional, a banda combinou riffs inspirados em Black Sabbath e Sleep com NWOBHM, além de uma estética fortemente ligada à fantasia e à ficção científica. Um dos discos mais importantes dessa geração, Age of Winters (2006) mostra que é possível voltar às raízes sem precisar repetir o passado.

Black Mountain 


— A banda que levou o stoner para um território ainda mais amplo, misturando tudo o que era possível em seu In the Future (2008) simultaneamente classificado como psychedelic rock, stoner rock, indie rock, heavy psych e space rock. Aqui, a herança do stoner começa a se confundir cada vez mais com a própria história do heavy psych contemporâneo.

Red Fang 


— Pegando carona na tradição do stoner, a banda também aproveitou para acrescentar a agressividade do sludge e a urgência do punk, em Murder the Mountains (2011) seu grande marco, o grupo levou seu som para além do circuito underground e ajudou a apresentar essa mistura para uma audiência muito maior. 

1000mods 


— Com seu Super Van Vacation (2011), o grupo grego começou a ganhar atenção internacional com uma mistura forte de stoner, heavy psych, doom e hard rock, com uma forte influência da tradição de Kyuss e Fu Manchu, além de demonstrar como uma linguagem nascida nos EUA podia ganhar uma identidade própria no Mediterrâneo.

Planet of Zeus 


— Saídos dos escombros de Atenas (olha aí mais uma banda grega), essa nova geração começou a absorver a linguagem stoner do jeito certo, transformando ela dentro de uma cena própria. Macho Libre (2011) ajudou a consolidar a banda dentro da cena europeia, enquanto Faith in Physics, de 2019, mostrou um grupo cada vez mais disposto a ampliar sua sonoridade.

Valley of the Sun 


— Uma vertente mais acessível e expansiva, a banda mistura stoner com classic rock, hard rock e uma espécie de grandiosidade próxima do arena rock. The Sayings of the Seers (2011) foi importante para apresentar essa identidade, enquanto trabalhos posteriores ampliaram a produção e o alcance do grupo.

Kadavar 


— Dialogando diretamente com seus avós só stoner, o grupo volta às origens do gênero para mostrar que a evolução do stoner também poderia acontecer através de uma espécie de arqueologia musical, e Abra Kadavar (2013) representa bem essa abordagem, voltar às influências que existiam antes do próprio gênero e reinterpretar com uma linguagem moderna.

Monolord 


— Levando a linguagem do stoner para um território muito mais próximo do doom, Empress Rising (2014) representa uma das tendências que definiram a cena contemporânea, o stoner e o doom deixaram de ser fronteiras claras e passaram a existir praticamente como pontos de uma mesma paisagem.

Red Mess 


— Outra prova de que o stoner não precisa nascer na Califórnia para encontrar uma identidade própria, os "moleques" do norte do Paraná desenvolveram seu som a partir do clássico, mas rapidamente incorporou rock progressivo, psicodelia, sludge e outras vertentes do rock pesado, e  Into the Mess (2017) representa muito bem essa expansão.

Elder 


— A próxima transformação dessa cena, a banda representa a evolução mais clara dessa geração. Parida do stoner e do doom, gradualmente incorporou rock progressivo, psicodelia e outras próprias na sonoridade do grupo. E é com Lore (2015) o momento em que essa transformação ficou especialmente evidente.

A herança que a próxima geração encontraria e o legado antes do gênero

O stoner rock não nasceu de uma única cena e nem pode ser atribuído a uma única banda. Antes que o gênero recebesse um nome, diferentes grupos já estavam desenvolvendo elementos que, mais tarde, seriam reunidos por uma outra geração.

E os anos 1970 estabeleceram boa parte da linguagem musical que o gênero teria, mostrando ao mesmo tempo o potencial das distorções, do volume e da sujeira sonora. E ao longo dos anos, teve quem manteve essa tradição viva no underground americano e ajudou a abrir caminho para o doom. 

Mas teve também aqueles que aproximaram o hard rock de uma sonoridade cada vez mais pesada, com alguns também colocando o blues e psicodelia dentro dessa mistura onde o som do “espaço”, a repetição e o caráter hipnótico eram as bases.

Mas nenhuma, em absoluto, nenhuma dessas bandas estava tentando criar o stoner rock. Naquele momento, o gênero sequer existia como conceito. O que havia era uma série de experiências diferentes acontecendo ao mesmo tempo, com músicos explorando o que acontecia quando o blues, psicodelia, volume alto, distorção e peso eram levados cada vez mais longe.

E essa talvez seja a parte mais interessante da história, o stoner não nasceu quando alguém teve uma ideia completamente nova, nasceu quando uma geração posterior percebeu que aquelas ideias antigas podiam ser combinadas de uma maneira diferente e onde outras bandas continuaram desenvolvendo aquela sonoridade ao longo dos anos.

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