Mastodon - Marrow Deep (2026)

 

Por Felipe Leonel

Com poucos dias de lançamento, no dia 28 de agosto de 2026, “Marrow Deep” tem gerado bastante comoção entre fãs e críticos do Mastodon. De forma bem geral até agora, a recepção do novo álbum tem sido absurdamente positiva, e faz bastante sentido isso. 

Muito mais do que ser colocado em uma caixinha de “disco é bom ou disco ruim", “Marrow Deep” tem trazido à tona aquilo que o Mastodon sabe fazer de melhor, compor músicas marcantes, e esse disco tá cheio delas.

Mas a pergunta que não quer calar é, como o Mastodon funciona sem Brent Hinds? Bom, a resposta é bem simples. A ausência de Hinds acaba deixando as composições mais coesas, menos imprevisíveis, mas, ao mesmo tempo, essa perda também gera um certo vazio.

O retorno do Mastodon ao peso de antes 

Um dos elementos que tem sido mais notados, e repetidos entre quem já escutou “Marrow Deep”, é de que o álbum representa uma espécie de retorno à agressividade dos primeiros trabalhos do Mastodon.

É um disco bastante concentrado e fortemente focado no metal. Os destaques sem dívidas vão pros riffs sludge em uma intensidade absurda que não se via a tempos na banda. É um disco tão forte quantoCrack the Skye" (2009), em se tratando de trazer algo novo e diferente na sonoridade do grupo. 

E além dos riffs, as linhas vocais que Bran e Troy apresentam aqui são mais elaboradas e mostram um dinamismo entre as vozes. A parceria com o guitarrista Nick Johnston também se mostra extremamente produtiva nas composições.

Mas a ausência de Brent Hinds está sendo sentida?

Provavelmente a maior discussão em torno do disco, e não só pela morte de Brent, mas também porque ele era uma parte muito específica da identidade sonora do grupo.

Seus riffs, seus solos, seu timbre e, principalmente, sua maneira completamente imprevisível de tocar guitarra ajudaram a criar a identidade musical do Mastodon, com suas misturas de country, blues e experimentalismo.

Não existe dúvida de que “Marrow Deep” é um disco excelente, mas na primeira audição ainda é possível sentir falta dos vocais e solos de Brent, ainda que ele tenha saído da banda antes mesmo de qualquer nova composição. 

Mas mesmo com essa falta, isso acaba não sendo um defeito do disco, já que existe aqui uma certa percepção de que o Mastodon se tornou outra coisa, ainda que não tenha abandonado sua sonoridade característica. E com ou sem Brent, “Marrow Deep” é prova disso.

Claro, ainda existe espaço pra uma nova apresentação do grupo pro mundo. É visível que a banda ainda parece estar tentando encontrar sua identidade pós-Brent. Mas essa é uma situação natural de toda banda que enfrenta a saída de um membro tão importante, nesse caso, um dos fundadores.

É aí que entra Nick Johnston

Uma das grandes surpresas positivas de “Marrow Deep”, o novo guitarrista parece estar exercendo muito bem a sua atual função. À primeira vista, Nick parece ter entrado na banda como simplesmente um substituto de Brent, mas tem se mostrado algo bem diferente.

Nick tem uma linguagem musical completamente diferente, um tanto mais técnica, melódica e próxima do rock instrumental/progressivo, elementos esses que injetam uma energia diferente e nova nas músicas. 

E isso gera uma diferença interessante entre os guitarristas, já que Brent sempre se mostrou bastante caótico em suas composições, trazendo elementos de blues, country, MUITA improvisação e uma certa sujeira não proposital muitas vezes.  

Já Nick tem uma precisão técnica, um melodismo e um controle absurdo daquilo que toca, um dos elementos que faz com que suas composições caminhem pra um lado muito diferente de Brent. 

E isso é algo muito positivo já que a banda tem deixado claro que ninguém ali está tentando fingir que nada mudou com a saída de Brent, mas sim incorporado essas mudanças todas à própria música.

A parte emocional parece estar funcionando muito bem… de novo

E mais uma vez a tragédia segue o Mastodon. “Marrow Deep” nasceu em meio a duas perdas muito pesadas pra banda — a morte do irmão de Brann Dailor e, posteriormente, a morte de Brent Hinds

Com essas duas perdas, o disco acaba continuando a já tradição da banda de transformar perda em música, mas existe aqui uma diferença importante, dessa vez o próprio público já conhecia a pessoa que foi perdida.

Mas ao contrário de “Emperor of Sand” (2017) e  “Hushed and Grim” (2021), onde as composições são mais leves, cadenciadas e emocionais, “Marrow Deep” muda a perspectiva e usa isso pra criar peso e velocidade. 

Além disso, o álbum muda a perspectiva de colocar um personagem protagonista em um mundo fantástico narrando uma história. Não, aqui cada música fala por si só. 

E os destaques?

Uma coisa que o Mastodon vez muito bem foi a escolha das suas músicas de trabalho pro disco novo. "Your Ghost Again" e “Snakes for Dinner” com suas letras super expositivas ao sentimento de luto pela morte de Brent e “In The Ruins”, diretamente influenciada pelo impacto do furacão Helene sobre Troy Sanders e sua família.  

As três composições mostraram muito bem a promessa que o disco novo oferecia e já dava o tom de como o restante do álbum poderia soar. Claro, com uma primeira audição do álbum completo já deu pra perceber que isso era só o começo e que “Marrow Deep” tinha muito mais truques na manga. 

Além delas, “Poisonous Weapons", "Golden Spires", "A Vampire's Demeanour", "The Vanishing" e "The Three Fates" também se mostram destaques fortes. 

E há convidados bem interessantes também. Vinte anos depois de “Colony of Birchmen” (Blood Mountain, 2006), Josh Homme retorna com sua voz grave no encerramento de “Snakes for Dinner”.  

Outro retorno muito bem vindo é de Neil Fallon, vocalista do Clutch, participando com vocais/fala em “The Three Fates”, faixa de encerramento do disco. E essa é outra reunião interessante, já que Fallon participou de “Blood and Thunder”, um dos maiores clássicos do Mastodon. 

Um dos grandes mestres do heavy também dá as caras aqui. Geezer Butler toca o baixo na introdução de “The Vanishing”, uma participação que tem um peso especial porque a faixa trata da mãe de Brann Dailor, que era grande fã de Butler. 

Resumindo a recepção até agora

Eu colocaria facilmente o disco com um dos grandes destaques do ano até agora. É um disco bastante sólido, conciso, pesado e muito, mas muito bem composto. Esse retorno da agressividade e a sensação de que a banda finalmente voltou a tocar com raiva é algo bastante positivo depois de tantos anos se afastando disso.

A ausência de Brent é impossível de ignorar, e escutar esse álbum sem a presença dele gera um certo vazio, ainda mais sabendo que jamais existirá a chance de um retorno. Mas o disco também tem uma grande surpresa, Nick Johnston parece ter conseguido trazer uma força musical que o Mastodon precisava nesse momento e “Marrow Deep” mostra um bom momento pra banda. 

A banda perdeu uma parte fundamental de sua identidade com a saída de Brent, e mais ainda com a morte do guitarrista, Mas em vez de tentar reproduzir aquele passado como forma de ganhar em cima da memória dele, está tentando descobrir o que o Mastodon pode ser a partir de agora.

E se “Emperor of Sand” era sobre aceitar a própria mortalidade e “Hushed and Grim” sobre aprender a viver com a ausência, “Marrow Deep” parece ter mostrado que dá pra transformar a perda em movimento sem precisar chorar pelos cantos.

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