Clutch: Metendo marcha entre o underground e o mainstream

Por Felipe Leonel
Poucas bandas conseguiram atravessar mais de três décadas de rock pesado sem perder a própria identidade. O Clutch, com total certeza, é uma delas. E desde o início dos anos 1990, o grupo construiu uma trajetória marcada pela disposição constante em experimentar sem abandonar aquilo que faz sua música soar imediatamente como Clutch.
A espinha dorsal da banda e o núcleo original desde sua formação, Neil Fallon, Tim Sult, Dan Maines e Jean-Paul Gaster forma o corpo, o rosto e o som do Clutch em um combinação de constância e movimento que nunca precisou abandonar suas raízes para seguir em frente. O grupo nasceu no underground, ganhou espaço no mainstream, mas nunca precisou se transformar em um produto moldado para o grande público.
Entre o underground e o mainstream, o Clutch foi metendo marcha sem parar enquanto construía uma das trajetórias mais singulares do stoner rock mundial.

Uma banda formada fora do lugar mais óbvio
A história do Clutch começa ainda no início dos anos 1990, em Germantown, Maryland, onde quatro amigos tentavam descobrir qual tipo de música queriam ser e fazer, e a proximidade de Maryland e Washington, D.C., foi um dos elementos que ajudaram nessa descoberta.
Um dos centros do hardcore norte-americano, a capital mostrava uma cena musical local extremamente forte e cheia de gente entusiasmada que não somente queria escutar música nova, mas também fazer música.
Grupos como Fugazi e Bad Brains ajudavam a estabelecer uma relação mais direta entre músicos, público e espaço de apresentação ajudando, posteriormente, a colocar o Clutch em contato com seu público de uma maneira diferente do que muitos outros faziam naquele momento.
Musicalmente, as influências punk, hardcore, heavy metal ficam evidentes quando se escuta os primeiros registros do grupo. Em 1991, o Clutch lança Pitchfork, um EP de quatro faixas que ainda carregava bastante da agressividade daquele hardcore e metal que serviam de referência pra banda.
Pouco depois, veio Passive Restraints, em 1992, um trabalho que já mostrava uma banda mais aberta e tentando ampliar suas possibilidades, mas ainda distante da sonoridade que mais tarde faria o nome Clutch ser associado ao stoner rock.
E talvez esteja justamente aí uma das partes mais interessantes dessa história. O Clutch não nasceu propriamente como uma banda de stoner rock. Esse som só seria incorporado posteriormente, à medida que os músicos deixavam suas influências se misturarem com o groove, blues e hard rock.


Quando a identidade começa a aparecer
O primeiro álbum completo, Transnational Speedway League chegou já em 1993. Aqui, a banda ainda carregava muito da agressividade que havia marcado seus primeiros registros, mas já começava a ampliar os caminhos que poderia seguir. O peso continuava presente, assim como a influência do hardcore e do metal alternativo, mas os riffs já ganhavam mais espaço e personalidade.
De fato, a virada de chave vem com o lançamento de seu homônimo (Clutch) em 1995, representando um momento decisivo na trajetória do grupo. Se o álbum anterior mostrava um Clutch encontrando seus caminhos, o disco autointitulado apresentava uma identidade muito mais definida.
O peso continuava lá, mas já não precisava mais depender apenas da velocidade ou da agressividade. É justamente essa mudança que faz o álbum ser tão importante para entender o Clutch. A banda não parece interessada em escolher uma única direção, em vez disso, passa a explorar o que acontecia quando diferentes referências eram colocadas dentro da mesma música.
E é essa uma das características que ajudaram a aproximar a banda do que, durante seria reconhecido como stoner rock, justamente quando o gênero começava a sair das dunas de Palm Desert para ganhar maior visibilidade pelo resto do país.


A promessa do underground que ganhou o mainstream
Quando The Elephant Riders chegou às lojas em 1998, o Clutch já não era só uma promessa do underground. A banda havia construído reputação suficiente para chamar a atenção de uma grande gravadora, e foi exatamente o que aconteceu.
O contexto também ajudava bastante. Um cenário onde o heavy metal estava em baixa e o rock alternativo em alta, colocou o stoner rock e Clutch (a tiracolo) na mira da grande indústria musical. Claro, o grupo tinha personalidade, experiência de estrada e um público que já vinha crescendo. O que ainda não estava claro era se essa combinação poderia ser transformada em um fenômeno de escala semelhante.
Nessa entoada toda, The Elephant Riders acabou mostrando que o caminho do Clutch seria outro. O álbum preservava aquilo que havia tornado a banda interessante até então, mas também ampliava algumas de suas possibilidades. Com seus grooves, melodias e arranjos menos imediatos, a banda não parecia disposta a simplificar sua identidade para se encaixar em uma expectativa de mercado.
O Clutch não se tornou uma banda de arena naquele momento, mas também não foi um fracasso. O que aconteceu foi mais interessante — a banda descobriu que seu crescimento não precisava seguir o mesmo caminho de outros grupos que estavam chegando ao grande público.
Em vez de depender de um grande hit (hoje em dia a gente tem “The Mob Goes Wild” e “Electric Worry”) ou de uma transformação estética capaz de aproximar seu som das rádios, a trajetória do Clutch continuou sendo construída por outros meios. Shows, turnês, público fiel e um catálogo cada vez maior passaram a funcionar como pilares de uma carreira que não precisava explodir de uma vez para continuar crescendo.

Duas facetas que não te deixa ficar parado(a)
Se havia uma coisa que o Clutch já havia deixado claro nos primeiros anos de carreira, era que repetir uma fórmula nunca seria suficiente. Jam Room, lançado em 1999, talvez seja um dos melhores exemplos dessa postura. O álbum abre ainda mais espaço para o groove, para o blues, para a psicodelia e para uma abordagem menos preocupada em seguir estruturas convencionais.
E em vez de tratar a experimentação como um desvio, o Clutch parecia incorporá-la naturalmente ao próprio processo criativo. A banda podia mudar de direção sem precisar anunciar uma nova fase a cada passo. O que permanecia era a maneira particular de fazer música, de trabalhar o ritmo e transformar referências diferentes em algo reconhecível.
Dois anos depois, Pure Rock Fury mostrava outro momento dessa mesma trajetória. O disco era mais direto em alguns aspectos e ampliava o alcance da banda, mas não representa uma tentativa de voltar ao som dos primeiros trabalhos nem de reproduzir o que havia funcionado anteriormente. O Clutch continuava avançando porque sua identidade não dependia de permanecer igual.


Tiranos e Robôs e a forma definitiva de som
É em Blast Tyrant (2004) que essa experiência de transformação em uma identidade plenamente consolidada surge de fato. Aqui, a banda já não parecia mais estar procurando um lugar entre o hardcore, o metal, o blues ou o rock alternativo, ela havia aprendido a fazer todas essas referências trabalharem a seu favor.
O resultado é um álbum que combina peso e groove com uma segurança que vinha sendo construída ao longo de mais de uma década. É nesse disco também que os grandes clássicos radiofônicos (por assim dizer) do grupo surgem.
No ano seguinte, Robot Hive/Exodus (2005) leva essa lógica ainda mais longe. O álbum amplia o campo sonoro do grupo com a presença do tecladista Mick Schauer, adicionando novas texturas às músicas. E é também nesse ponto que a trajetória do Clutch começa a ficar especialmente interessante.
O hardcore dos primeiros anos não desaparece, mas deixa de ser o centro, o metal continua presente, porém passa a dividir espaço com o southern rock. É um disco que funciona menos como uma ruptura e mais como uma síntese, é o lugar onde o grupo encontra um equilíbrio próprio.


Refinando a própria identidade
Em From Beale Street to Oblivion (2007), o Clutch leva ainda mais longe uma das características que já vinha desenvolvendo, a relação com o blues. O disco mantém o peso dos trabalhos anteriores, mas deixa um pouco de lado alguns dos elementos base do stoner.
O resultado não soa como uma mudança de identidade, pelo contrário, mostra uma banda ainda mais interessada em criar algo fora da caixinha que eram colocados, mas sem perder a própria identidade. Aqui, o blues não aparece como uma fantasia temporária ou como uma tentativa de voltar às raízes do rock, ele só é trazido ainda mais para superfície ganha espaço para conduzir o disco.
Dois anos depois, Strange Cousins from the West (2009) apresenta um Clutch ainda mais confortável dentro da própria linguagem. Em vez de buscar uma nova ruptura, a banda trabalha com elementos que já havia incorporado ao longo da carreira e enquanto encontra novas maneiras de combinar tudo isso.
O disco mantém o peso e o groove, mas também reforça o caráter bluesy e a liberdade rítmica de antes trazendo uma sensação de continuidade, mas não de repetição. Mais uma vez a banda se coloca em uma posição de mostrar uma característica que seria fundamental para sua longevidade — evoluir nem sempre significa mudar completamente de direção.


Da sobrevivência ao reconhecimento
Quando Earth Rocker veio ao mundo em 2013, o Clutch já tinha mais de duas décadas de estrada. Não era uma banda tentando provar que ainda tinha espaço no rock pesado, muito menos um grupo recém-descoberto procurando seu primeiro grande momento. Era uma banda veterana, com uma discografia extensa, um público fiel e uma identidade construída ao longo de anos de turnês.
Mesmo assim, aquele álbum levou o Clutch a um patamar comercial que a banda ainda não havia alcançado daquela maneira. Earth Rocker chegou ao Top 15 da Billboard 200, resultado particularmente significativo para um grupo que havia passado tanto tempo construindo sua carreira longe das rotas mais convencionais do mainstream.
Dois anos depois, Psychic Warfare repetiria o feito. O álbum também alcançou o Top 15 da Billboard 200, confirmando que o desempenho anterior não havia sido apenas um momento isolado. E a situação é curiosa quando colocada em perspectiva, já que o Clutch não buscava por esse tipo de visibilidade, o que mudou foi a escala do reconhecimento.
Earth Rocker não precisou apresentar uma nova banda ao público, o disco apresentou uma versão ainda mais segura de uma banda que já sabia exatamente o que queria fazer. E Psychic Warfare seguiu essa lógica. Em vez de tentar reproduzir mecanicamente o sucesso do disco anterior, o grupo continuou expandindo sua linguagem dentro dos próprios limites.
É aí que esses dois álbuns ganham importância para além dos números. Em uma indústria acostumada a apresentar artistas como novidades, o Clutch alcançou um de seus maiores momentos comerciais depois de mais de 20 anos de carreira.


Síntese sem nostalgia e um longo caminho pela frente
Quando Book of Bad Decisions chegou em 2018, o Clutch já tinha mais de 25 anos de carreira e, a essa altura, a banda não precisava recuperar o som de nenhuma fase específica mas mostrar que ainda era relevante. O desafio, de fato, era continuar fazendo música nova carregando toda a experiência acumulada ao longo do caminho sem soar repetitivo.
Ainda assim, o álbum funciona justamente como uma espécie de síntese onde aparecem praticamente todas as ideias que a banda já teve ao longo de todos esses anos, mas nada, em nenhum momento do disco, existe qualquer segundo que possa ser chamado de autocópia. É um disco com energia e variedade, mas também com a segurança de quem não precisa provar mais nada pra ninguém.
E com um intervalo maior entre lançamentos, até então algo pouco comum, Sunrise on Slaughter Beach é lançado com a proposta de reforçar uma ideia que já atravessava a carreira do Clutch — maturidade não precisa significar acomodação. E em 2022, a banda já tinha uma identidade consolidada, uma discografia extensa e décadas de experiência, mas ainda encontrava maneiras de movimentar seu som.
O álbum trabalha novamente com o peso, o groove e o blues que se tornaram parte do vocabulário do grupo, ao mesmo tempo que explora diferentes atmosferas e dinâmicas. É um disco que soa pertencente à essa nova fase madura do Clutch sem depender da nostalgia para justificar sua existência. E ambos “Book (...)” e “Sunrise (...)” mostram um Clutch que chegou à maturidade sem transformar essa mesma maturidade em ponto final.


O que torna o Clutch tão diferente?
Até aqui, a história do Clutch pode ser acompanhada pelos discos, pelas mudanças de fase e pelos diferentes espaços que a banda ocupou ao longo da carreira. Mas existe uma questão que a cronologia, sozinha, não consegue responder — o que faz uma música do Clutch continuar soando como Clutch mesmo quando o Clutch muda de direção?
A resposta está em uma combinação de elementos (quatro, pra ser exato) que vão muito além de gêneros, ou seja, parte dessa continuidade pode ser encontrada na própria formação. Neil Fallon, Tim Sult, Dan Maines e Jean-Paul Gaster permanecem juntos desde 1991, com décadas de experiência compartilhada, assim como décadas de composição, ensaio, palco e experimentação entre os mesmos quatro músicos.
E o Clutch construiu sua identidade a partir dessa interação quase simbiótica entre guitarra, baixo, bateria e uma dimensão narrativa quase caótica e perfeita que as letras de Fellon trazem às músicas. E talvez seja essa a diferença entre permanecer ativo e continuar relevante.

Clutch não é apenas uma banda de stoner
Mesmo sendo uma das bandas ícones do stoner rock mundial, talvez o maior legado do Clutch seja justamente ter passado mais de três décadas sem precisar caber perfeitamente nessa categoria.
Olhando sua trajetória, a banda passou pelo hardcore, pelo metal, pelo blues, pelo funk, pelo rock psicodélico e, claro, pelo stoner, sem transformar nenhum desses caminhos em uma fórmula definitiva.
E essa liberdade ajudou o grupo a construir algo mais difícil de classificar, mas muito fácil de reconhecer. Você pode ouvir um riff, uma linha de baixo, uma linha de percussão ou mesmo uma frase deslocada e já saber que está escutando Clutch, seja qual for a direção que a música aponte.
É também por isso que a banda chegou tão longe sem depender de uma época específica. O Clutch atravessou mudanças de mercado, tendências e gerações sempre mantendo a formação original ao mesmo tempo em que ampliou sua discografia e fortaleceu uma relação com o público construída muito mais na estrada do que nas paradas de sucesso.
Hoje, o Clutch ocupa um espaço particular no rock pesado — grande o suficiente para ter influência internacional com uma base de fãs extremamente fiel, mas independente o bastante para continuar seguindo suas próprias regras e metendo marcha muito mais do que apenas uma banda de stoner rock.


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