Metal Gear Solid: Peace Walker e uma nova mudança de fórmula

Por Felipe Leonel
Lançado originalmente para PlayStation Portable em 2010, Metal Gear Solid: Peace Walker foi posteriormente disponibilizado em versões para consoles e passou a integrar a Metal Gear Solid HD Collection, ampliando seu acesso para jogadores de outras plataformas.
Dentro da narrativa, o jogo funciona como uma continuação direta da trajetória iniciada em Snake Eater, ainda que tenha entre eles Portable Ops como complemento discutível na cronologia, e que, por sua vez, ocupa uma posição muito mais consolidada dentro da linha narrativa principal.
Peace Walker também representa uma mudança importante na maneira como Metal Gear é jogado. A estrutura tradicional de infiltração continua presente, mas o jogo passa a colocar muito mais ênfase na construção e no gerenciamento da força militar de Big Boss.
Em vez de controlar apenas um personagem durante as missões, o jogador começa a administrar uma organização inteira. Soldados, equipamentos, desenvolvimento tecnológico e expansão da base passam a fazer parte da experiência.
Muitas dessas ideias seriam posteriormente ampliadas em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, tornando Peace Walker uma espécie de laboratório para sistemas que se tornariam fundamentais na próxima geração da franquia.

Snake de volta à guerra, a queda de Peace Walker e o nascimento definitivo de Big Boss
Em 1974, dez anos após os acontecimentos de Metal Gear Solid 3: Snake Eater, Naked Snake já havia assumido definitivamente o nome Big Boss e criado, ao lado de Kazuhira Miller, os Militaires Sans Frontières (MSF).
É nesse momento que Ramón Gálvez Mena e sua jovem aluna Paz Ortega procuram a MSF com um pedido de ajuda — confrontar uma força militar desconhecida que está operando na Costa Rica, país que não possui exército permanente.
Big Boss inicialmente se recusa a participar do conflito, pois não quer transformar a MSF em mais um grupo de mercenários a serviço de interesses políticos. Porém, Paz apresenta uma gravação na qual Snake reconhece a voz de The Boss, sua antiga mentora que acreditava estar morta.
Intrigado pela possibilidade de ela estar relacionada ao que acontece na Costa Rica, Big Boss aceita a missão e a investigação o coloca em contato com a resistência local, liderada por Amanda Valenciano Libre, e Ricardo “Chico” Valenciano Libre, irmão mais jovem de Amanda, enquanto surgem indícios de que a CIA está envolvida na operação.
Conforme avança pela Costa Rica, Big Boss descobre que aquela crise esconde algo muito maior — a presença de armas nucleares e o desenvolvimento de uma nova máquina capaz de alterar completamente o equilíbrio da Guerra Fria, uma arma conhecida como Peace Walker.
O projeto é liderado pelo agente da CIA Hot Coldman e, ao mesmo tempo, o cientista Huey Emmerich está envolvido no desenvolvimento da máquina, enquanto Big Boss começa a perceber que foi colocado no centro de uma conspiração que envolve a CIA, a União Soviética, The Boss e o futuro da própria MSF.

A investigação leva Big Boss ao confronto com Hot Coldman, que revela seu verdadeiro plano — utilizar o Peace Walker para realizar um ataque nuclear contra a União Soviética e, com isso, demonstrar que a máquina é capaz de retaliar automaticamente qualquer agressão.
Ao mesmo tempo, Vladimir Zadornov, que se passava por Gálvez, revela ser um agente soviético e tenta tomar o controle da arma. Big Boss consegue impedir o plano, mas Coldman, antes de morrer, ativa o sistema que faz os Estados Unidos acreditarem estar sofrendo um ataque nuclear soviético.
Quando uma retaliação parece inevitável, a inteligência artificial baseada em The Boss assume o controle do Peace Walker e o leva para o fundo do lago, impedindo a guerra nuclear.
De volta à Mother Base, porém, a ameaça ainda não terminou. Zadornov foge repetidas vezes de sua prisão, fazendo Big Boss suspeitar que existe um traidor dentro da MSF. A verdade vem à tona quando Paz revela sua verdadeira identidade: ela é, na realidade, uma agente de Cipher, organização ligada a Major Zero.
Paz havia manipulado os acontecimentos para chegar ao controle do Metal Gear ZEKE, construído pela MSF como uma arma de dissuasão. Com o ZEKE armado com uma ogiva nuclear, Paz exige que Big Boss entregue sua organização a Cipher ou permita que ela lance uma bomba contra os Estados Unidos e faça da MSF uma ameaça nuclear aos olhos do mundo.
Big Boss se recusa e enfrenta Paz, conseguindo impedir o lançamento e danificando o ZEKE. Paz acaba lançada ao mar, desaparecendo. Depois de finalmente confrontar o significado do sacrifício de The Boss, Snake decide assumir definitivamente o título de Big Boss e aceita que sua relação com Zero chegou a um ponto sem retorno.
Ao lado de seus soldados, ele declara que a MSF continuará existindo para aqueles que vivem pela guerra — dando os primeiros passos em direção àquilo que, anos depois, seria conhecido como Outer Heaven.

A Mother Base como parte do jogo
Em MGS - PW, a Mother Base deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar também como uma extensão da própria progressão do jogador. Conforme a MSF cresce, novas plataformas e estruturas podem ser construídas, aumentando a capacidade da organização.
Os soldados recrutados também podem ser distribuídos entre diferentes equipes de acordo com suas habilidades. Existem grupos dedicados a combate, pesquisa e desenvolvimento, inteligência, medicina e outras funções necessárias para manter a organização funcionando.
Essa estrutura cria um ciclo constante entre as missões e a administração da base. O jogador sai para uma operação, recruta soldados e obtém recursos, retorna para a Mother Base e utiliza essas conquistas para desenvolver novas armas e equipamentos.
A evolução de Big Boss, portanto, deixa de ser representada apenas por melhorias individuais. A própria organização cresce junto com o jogador.
O sistema de recrutamento e Fulton
E falando em recrutamento de soldados, essa é certamente uma das mecânicas mais importantes de PW. Durante as missões, inimigos derrotados podem ser capturados e posteriormente incorporados à MSF.
O sistema Fulton Recovery torna esse processo particularmente importante. Soldados incapacitados podem ser extraídos do campo de batalha e enviados para a Mother Base, onde passam a fazer parte da organização.
O que poderia ser apenas uma mecânica adicional acaba se tornando um dos pilares da progressão. Cada novo soldado pode representar uma melhoria para determinada equipe, aumentar a capacidade da MSF ou contribuir para o desenvolvimento de novos equipamentos.
Em Peace Walker, capturar inimigos deixa de significar apenas completar uma missão. O jogador está literalmente construindo o exército de Big Boss. Essa ideia seria levada ainda mais longe em The Phantom Pain.
Missões, operações e estrutura portátil
A mecânica aqui também foi influenciada diretamente pelo fato de o jogo ter sido desenvolvido originalmente para o PlayStation Portable. Em vez de apresentar uma campanha contínua nos moldes tradicionais da série, o jogo organiza sua progressão em missões e operações relativamente independentes.
Essa estrutura funciona especialmente bem para uma plataforma portátil. O jogador pode iniciar uma operação, concluí-la e retornar posteriormente para continuar a história ou realizar atividades secundárias.
A campanha principal é acompanhada por diversas missões adicionais, permitindo que o jogador desenvolva sua Mother Base, recrute soldados, consiga recursos e experimente diferentes equipamentos.
Essa divisão também combina com a própria ideia da MSF como uma força militar contratada para diferentes operações. Cada missão funciona como uma nova tarefa para a organização, enquanto a progressão entre elas representa o crescimento gradual do exército de Big Boss.
Cooperação e multiplayer
Outro diferencial importante de PW é a forte presença do multiplayer cooperativo. O jogo foi pensado para permitir que jogadores trabalhassem juntos em determinadas operações, dividindo funções e enfrentando inimigos mais poderosos em equipe.
A cooperação também se relacionava diretamente com a proposta do jogo. Em vez de representar Big Boss como um soldado completamente isolado, o multiplayer reforçava a ideia de que as missões poderiam ser realizadas por uma força militar organizada.
Essa característica era especialmente relevante em uma plataforma como o PSP, onde a possibilidade de reunir outros jogadores para realizar operações acrescentava uma dimensão social à experiência.
Com isso, PW conseguiu expandir a fórmula de Metal Gear sem abandonar sua essência de espionagem e infiltração, adicionando uma camada de gerenciamento, progressão e cooperação que transformou a MSF em uma parte ativa da experiência.

O legado de Peace Walker
MGS - PW ocupa um lugar fundamental na era Big Boss. O jogo consolida o personagem como protagonista de sua própria história e aprofunda a relação entre suas escolhas e o legado deixado por The Boss.
Também é em PW que os MSF deixam de ser apenas uma força militar independente e passam a representar concretamente a visão de mundo de Big Boss. E se Snake Eater mostrou como Naked Snake se tornou Big Boss, Peace Walker mostra o que esse homem decide fazer depois de receber esse nome.
E é justamente esse caminho que, anos depois, levará à criação de Outer Heaven e ao confronto que colocará Big Boss frente a frente com Solid Snake. A partir daqui, a história deixa de ser sobre a construção de uma lenda e se torna sobre a queda de um império.


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