Metal Gear e Metal Gear 2: Como os clássicos do MSX2 criaram uma das maiores franquias dos videogames

Por Felipe Leonel

Quando se pensa em Metal Gear, e eu tenho certeza que isso acontece com todo fã, à primeira coisa que vem à mente logo de cara é o jogo Metal Gear Solid, a versão lançada em 1998 pro PlayStation 1. 

E é inegável o quanto esse título foi importante, já que apresentou a franquia pra uma geração inteira de jogadores ao redor do mundo e consolidou Hideo Kojima como um dos grandes nomes da indústria dos videogames.

Mas tem um porém aí nessa história, a origem desse jogo começou pouco mais de uma década antes com dois jogos que inauguraram o gênero stealth/espionagem

Lançados pra uma plataforma chamada MSX2 somente no Japão, Metal Gear (13/julho/1987) e Metal Gear 2: Solid Snake (20/julho/1990) estabeleceram, de fato, os conceitos que moldariam não apenas o futuro dessa série, mas também o gênero de jogos de infiltração. 

Muito antes de Shadow Moses, do Codec e das longas cenas cinematográficas, esses dois títulos já exploravam espionagem, estratégia, narrativa e temas como guerra, proliferação nuclear e conflitos ideológicos. E mesmo com as limitações técnicas da época, ambos apresentaram ideias que permanecem relevantes até hoje.

Antes de Metal Gear Solid: o nascimento de uma lenda

Na segunda metade da década de 1980, a indústria dos videogames era dominada por jogos de ação direta, plataformas e títulos de arcade. E a maior parte das experiências colocava o jogador em confrontos constantes, recompensando reflexos rápidos e a eliminação de inimigos. 

Narrativas elaboradas ainda eram raras, e poucos estúdios buscavam criar histórias mais complexas ou mecânicas que incentivassem o planejamento. 

Foi nesse cenário que um jovem Kojima, ainda no início de sua carreira na Konami, recebeu a missão de desenvolver um novo jogo pra uma plataforma/computador bastante popular em terras nipônicas, o já citado MSX2.

Apesar da pouca experiência, Kojima já demonstrava interesse em criar jogos inspirados pela linguagem do cinema, combinando narrativa, personagens marcantes e momentos de tensão.

E as limitações do hardware tiveram um papel fundamental nisso. O MSX2 tinha uma capacidade bem baixa de processamento e não conseguia mostrar muitos inimigos e projéteis na tela de forma simultânea sem comprometer o desempenho. 

Em vez de enxergar essa restrição como um problema, Kojima encontrou uma solução bastante criativa, ao invés de incentivar o jogador a enfrentar todos os adversários, decidiu usar os obstáculos como parte do que deveria ser evitado.

Daí nasceu uma proposta bem incomum pra a época. Pra que a missão tivesse sucesso, as ações do jogador dependiam da observação, da paciência e do uso inteligente dos equipamentos. A infiltração substituía o combate direto. 

Essa ideia aplicada acabou criando uma experiência que rompia com as convenções dos jogos de ação daquela década e lançava as bases do que mais tarde seria reconhecido como o gênero stealth. Em Metal Gear, a missão era sobreviver dentro de uma base hostil evitando ser detectado, preservando munição e utilizando equipamentos específicos pra superar obstáculos.

Claro, o reconhecimento mundial de fato só veio com o lançamento de Metal Gear Solid anos depois, mas é nesses dois jogos que os pilares do gênero surgiram: o protagonista Solid Snake, as missões de infiltração, os conflitos militares, a ameaça representada pelos Metal Gears e a combinação entre narrativa cinematográfica e jogabilidade estratégica que transformaria a série em uma das mais importantes.

A inovação da furtividade

Essa mudança de filosofia no cenário de jogos da época, alterava completamente o ritmo da experiência do jogador. Aqui era preciso observar as rotas de patrulha, escolher o momento certo pra avançar e encontrar caminhos alternativos tornavam-se tão importantes quanto qualquer confronto. 

Sempre que um guarda identificava Snake, o jogador precisava lidar com um estado de alerta que aumentava significativamente a dificuldade da infiltração. Essas ideias acabariam sendo refinadas em Metal Gear 2: Solid Snake e, posteriormente, alcançariam um novo patamar com Metal Gear Solid.

O nascimento de Solid Snake

O ano é 1995 e o protagonista da aventura é Solid Snake (nome real, David), um jovem agente da unidade de operações especiais FOXHOUND, que é enviado pra cumprir uma missão considerada praticamente impossível. 

O objetivo? Se infiltrar em Outer Heaven, uma misteriosa fortaleza militar localizada na África do Sul, e resgatar o agente Gray Fox, desaparecido durante a missão anterior. Caso a missão de resgate seja concluída, Snake ainda deverá descobrir a verdade sobre uma arma secreta conhecida apenas pelo codinome Metal Gear.

E muito mais do que um simples cenário, Outer Heaven é apresentada como uma nação militar independente, capaz de desafiar as maiores potências do mundo. Sob o comando de líder misterioso, a fortaleza abriga soldados de elite, cientistas e instalações secretas dedicadas ao desenvolvimento de armamentos avançados.

No centro dessa estrutura está a arma definitiva, o Metal Gear TX-55, um tanque bípede equipado pra realizar lançamentos nucleares praticamente de qualquer lugar do planeta.

Durante toda a operação, Snake recebe orientações por rádio de seu comandante, Big Boss, sem imaginar que o lendário líder da FOXHOUND esconde interesses escusos e desempenha um papel muito diferente daquele que aparenta. 

E é essa reviravolta que tornaria uma das primeiras grandes surpresas narrativas idealizadas por Kojima e que ajudou a consolidar a reputação da série por seus enredos cheios de conspirações e traições.

Mais do que criar uma arma gigantesca pra servir como chefe final, Kojima também utiliza seu Metal Gear pra discutir um tema que voltaria a aparecer em praticamente todos os jogos da série: os riscos da proliferação nuclear e o impacto da tecnologia militar sobre o equilíbrio geopolítico mundial.

Metal Gear 2: Solid Snake elevou tudo a outro nível

Três anos após o lançamento do primeiro jogo, Hideo Kojima retorna ao universo de Metal Gear com um projeto muito mais ambicioso. Lançado em 1990 também pro MSX2, Metal Gear 2: Solid Snake não apenas expandiu a história iniciada em Metal Gear, como também refinou praticamente todos os aspectos da experiência original. 

O resultado foi um jogo mais complexo, cinematográfico e tecnicamente avançado, capaz de apresentar conceitos que só se tornariam populares anos depois.

Enquanto o primeiro título estabeleceu as bases da franquia, sua sequência consolidou a identidade da série. O foco na infiltração permaneceu, mas agora acompanhado de personagens mais desenvolvidos, uma narrativa mais elaborada e mecânicas que aproximavam o jogador de uma verdadeira operação de espionagem.

Zanzibar Land e a guerra sem fim

Ambientado em 1999, quatro anos após os acontecimentos do primeiro jogo, Metal Gear 2 marca o retorno de Solid Snake, novamente convocado pela FOXHOUND pra enfrentar uma ameaça internacional. 

A nova missão leva o agente a uma região em conflito, Zanzibar Land, uma nação militar fortemente armada que surge como uma nova ameaça ao cenário geopolítico mundial e onde uma organização militar independente ameaça desestabilizar o equilíbrio mundial utilizando recursos estratégicos e tecnologia de ponta.

O país controla um recurso de enorme importância estratégica e utiliza esse poder pra desafiar governos e pressionar outras nações, reforçando um dos principais temas da série: a relação entre poder militar, política e dissuasão nuclear.

Ao longo da infiltração, Snake percebe que há muito mais em jogo do que uma simples operação de resgate ou reconhecimento. Personagens conhecidos retornam, antigas rivalidades reaparecem e o verdadeiro líder da organização revela conexões diretas com os acontecimentos do primeiro jogo.

Sem entrar nos principais detalhes da trama, Metal Gear 2 amplia significativamente o universo da franquia e estabelece conflitos que seriam fundamentais pra toda a cronologia apresentada nos títulos seguintes.

E em comparação com seu antecessor, a continuação representa um enorme salto de qualidade. O roteiro ganhou maior profundidade, os personagens passaram a ter motivações mais bem definidas e os diálogos por rádio tornaram-se parte fundamental da experiência, desenvolvendo a narrativa durante toda a missão. 

A direção de Kojima também começou a demonstrar uma influência cinematográfica mais evidente, utilizando enquadramentos, momentos dramáticos e reviravoltas que mais tarde se tornariam marcas registradas da franquia.

As mecânicas que anteciparam Metal Gear Solid

Se o primeiro Metal Gear já era inovador, sua sequência elevou a experiência de infiltração a um novo patamar.  Uma das novidades mais importantes foi a possibilidade de rastejar, permitindo que Snake atravessasse espaços estreitos e permanecesse escondido sob obstáculos. O jogo também introduziu um radar pra auxiliar a leitura do ambiente, oferecendo ao jogador uma visão mais estratégica das áreas exploradas.

Outro avanço significativo foi a evolução da inteligência artificial dos inimigos. Os guardas passaram a reagir de forma mais convincente às ações do jogador, alterando suas rotas de patrulha, investigando ruídos e tornando os estados de alerta mais desafiadores. Isso exigia uma abordagem muito mais cuidadosa durante toda a missão.

A comunicação por rádio também ganhou um papel muito mais relevante. Além de fornecer objetivos e dicas de jogabilidade, as conversas desenvolviam os personagens, aprofundavam a narrativa e revelavam informações importantes sobre o mundo do jogo, um recurso que se transformaria em uma das principais características da série.

Somadas, essas melhorias criaram uma experiência de infiltração muito mais sofisticada, aproximando o jogador do papel de um agente secreto em uma operação militar. 

Os temas que já estavam presentes desde o início

Embora sejam frequentemente lembrados por suas mecânicas de infiltração, Metal Gear e Metal Gear 2: Solid Snake também estabeleceram outro elemento que se tornaria uma das maiores características da franquia: a abordagem de temas políticos, militares e filosóficos. 

Desde os primeiros jogos, Kojima demonstrava interesse em construir histórias que fossem além do conflito entre herói e vilão, utilizando a espionagem como ponto de partida pra discutir questões muito mais amplas. E a Guerra Fria e suas consequências estão entre as principais influências desse universo.

Mesmo os acontecimentos dos dois jogos se passando em um contexto fictício, a tensão entre potências militares, a corrida armamentista e a disputa por recursos estratégicos refletem um período em que o equilíbrio mundial era constantemente ameaçado pela possibilidade de um conflito em larga escala. Dentro desse cenário, a proliferação nuclear ocupa um papel central. 

E mais do que apresentar uma arma futurista, a série utiliza essa tecnologia pra questionar os impactos da corrida armamentista e os riscos de concentrar tanto poder nas mãos de governos ou organizações independentes.

Outro tema recorrente é a manipulação política. Nos dois primeiros jogos, o jogador descobre que nem sempre as informações recebidas durante a missão correspondem à realidade e que interesses ocultos frequentemente determinam o rumo dos acontecimentos. 

A figura dos mercenários também aparece como um elemento importante na construção desse universo. Tanto Outer Heaven quanto Zanzibar Land representam nações militares formadas por soldados que vivem à margem dos exércitos tradicionais, levantando discussões sobre o papel desses combatentes em um mundo marcado por conflitos constantes. 

Ao mesmo tempo, a série apresenta reflexões sobre a ética militar. Os personagens frequentemente enfrentam dilemas relacionados ao dever, à lealdade e ao uso da força, mostrando que a guerra dificilmente pode ser reduzida a uma simples divisão entre certo e errado. 

E nos títulos, Kojima já demonstrava interesse em explorar as consequências humanas dos conflitos armados e as motivações daqueles que vivem exclusivamente pra o campo de batalha.

Por fim, Metal Gear e Metal Gear 2 introduzem um dos conceitos mais importantes de toda a franquia: o legado. As escolhas dos personagens, suas ideologias e as consequências de suas ações continuam influenciando os acontecimentos muito além do encerramento de cada jogo, desenvolvido mais tarde com personagens como Big Boss, Solid Snake e The Boss.

Como Metal Gear 2 preparou o caminho pra Metal Gear Solid

Quando Metal Gear Solid foi lançado em 1998 pra o primeiro PlayStation, muitos jogadores tiveram a impressão de que aquele era um grande salto em termos de narrativa e direção cinematográfica nos videogames como um todo. 

E, de fato, foi um grande salto. No entanto, boa parte das características que transformaram aquele jogo em um clássico já haviam sido construídas oito anos antes em Metal Gear 2: Solid Snake

Claro, o avanço tecnológico permitiu que todas aquelas ideias fossem elevadas à enésima potência, e de forma muito mais sofisticada em cada um daqueles momentos e mecânicas, mas seus alicerces já estavam presentes no MSX2.

A construção de chefes marcantes, os inimigos com suas motivações e habilidades próprias, o progresso do jogador a cada obstáculo e cada confronto contando como parte importante da narrativa. Eram esses personagens com personalidade que representam uma evolução significativa. 

O próprio Solid Snake que deixa de ser apenas um agente encarregado de cumprir uma missão e passa a demonstrar conflitos, opiniões e emoções ao longo da campanha. Da mesma forma, aliados e antagonistas recebem maior desenvolvimento, tornando o universo da franquia mais rico e contribuindo pro envolvimento do jogador com a trama.

Outro elemento que se consolidou nessa sequência foi o uso constante da comunicação por rádio. Muito além de apenas transmitir objetivos, essas conversas aprofundavam a narrativa, desenvolviam os personagens e permitiam que a história continuasse sendo contada durante a jogabilidade, sem interromper o ritmo da missão.

A influência do cinema também se tornou muito mais evidente, com enquadramentos diferenciados, momentos de tensão cuidadosamente construídos e sequências que buscam criar impacto dramático. Essa forma de conduzir a narrativa seria amplamente expandida posteriormente, tornando uma das principais marcas do diretor e da franquia.

Grandes revelações e reviravoltas pra alterar completamente a percepção do jogador sobre determinados personagens e acontecimentos também nascem aqui, mostrando que as missões de Snake envolvem interesses muito maiores do que aparentam à primeira vista. 

Talvez a herança mais importante, porém, esteja no conflito ideológico entre Solid Snake e Big Boss. Mais do que uma disputa entre herói e vilão, Metal Gear 2 apresenta visões opostas sobre guerra, patriotismo e o papel do soldado no mundo contemporâneo. Enquanto Snake luta pra impedir que novas ameaças coloquem o mundo em risco, Big Boss defende a criação de um lugar onde soldados possam viver exclusivamente pra o combate, livres das decisões políticas dos governos.

Vale a pena jogar Metal Gear e Metal Gear 2 atualmente?

Naturalmente, o tempo trouxe mudanças significativas na forma como os jogos da franquia são desenvolvidos. Mas, mesmo após mais de três décadas de seus lançamentos, Metal Gear e Metal Gear 2: Solid Snake continuam sendo experiências relevantes pra quem deseja conhecer a origem da franquia e entender a evolução dos jogos de infiltração. 

Claro, é inegável que Metal Gear Solid foi o responsável por transformar a franquia em um fenômeno mundial. No entanto, reduzir a importância dessa franquia apenas ao título de 1998 seria ignorar o papel fundamental desempenhado pelos dois lançamentos originais pro MSX2.

E muito mais do que apenas estabelecer conceitos de jogabilidade pro que viria a ser em seu futuro, os títulos também demonstraram uma visão incomum do que videogames poderiam oferecer pra a época. 

Jogá-los hoje é compreender o surgimento de mecânicas, conceitos narrativos e escolhas de design que influenciaram diretamente inúmeras franquias lançadas nas décadas seguintes. São jogos que também permanecem relevantes não apenas por seu valor histórico, mas por representarem o ponto de partida de uma linguagem que influenciou gerações

Felizmente, o acesso aos dois jogos se tornou muito mais simples nos últimos anos graças às remasterizações e coletâneas oficiais. Atualmente, ambos estão disponíveis em compilações (Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 1), preservando as versões originais e permitindo que uma nova geração conheça esses clássicos em plataformas modernas. 

Pra quem nunca teve contato com os jogos, a principal recomendação é ajustar as expectativas. Em vez de esperar a mesma fluidez e os recursos presentes nos títulos mais recentes, vale encarar cada um deles como obras fundamentais da história dos videogames.

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