Do thrash ao hard rock, do underground ao experimental — O dia em que o calendário entregou ao mundo peso, caos e história

Por Felipe Leonel

O dia 27 de maio é muito mais que uma simples data no calendário, ao menos pra mim, e de forma muito pessoal. Entre riffs distorcidos, capas icônicas e discos que atravessaram décadas, esse dia acabou se tornando uma espécie de ponto de encontro involuntário entre diferentes fases do rock e do metal, muito claramente nesses seis álbuns. 

Talvez exista algo curioso nisso — enquanto muita gente associa aniversários à nostalgia ou retrospectiva pessoal, ao meu ver esse dia em especial também coincide com lançamentos que ajudaram a moldar sonoridades, cenas e até maneiras diferentes de entender música pesada. É quase como se esse dia carregasse uma pequena concentração de caos criativo. 

Em anos diferentes, bandas completamente distintas escolheram essa mesma data para colocar no mundo discos que vão do death metal técnico ao hard rock de arena, ao mesmo tempo que passam pelo metal progressivo, thrash, alternativo e até mesmo em experimentalismos extremos. Não existe um padrão sonoro exato entre eles — e talvez seja justamente isso que torne a coincidência interessante.

Alguns desses álbuns redefiniram carreiras, outros dividiram fãs, outros marcaram mudanças de formação, consolidaram novas fases ou simplesmente envelheceram melhor do que muita gente esperava. 

São discos que nasceram como sucessos gigantescos e outros que ganharam status cult com o passar do tempo. Mas todos compartilham uma característica importante representam momentos específicos em que bandas decidiram expandir sua identidade, testar novos caminhos ou reforçar tudo aquilo que já faziam de melhor.

Do peso paranoico de "Roorback", até a grandiosidade radiofônica de "Sonic Temple", da brutalidade moderna de "Cancer Culture", indo direto ao virtuosismo cinematográfico de "Inferno", existe uma linha invisível conectando esses trabalhos - todos eles são reflexos do seu tempo (óbvio), mas que continuam encontrando novos ouvintes muito depois de seus lançamentos.

No fim das contas, olhar pra cada um desses álbuns é mais sobre perceber como uma única data pode carregar décadas de barulho, experimentação e mudanças de direção em discos que continuam vivos muito tempo depois da primeira audição. Porque no rock e no metal, algumas datas acabam virando mais do que números — elas se tornam pequenos arquivos históricos de distorção, identidade e permanência.

Decapitated “Cancer Culture” 

“Cancer Culture”, de 2022, é o oitavo álbum de estúdio do Decapitated e também uma continuação direta da fase mais moderna e grooveada iniciada poucos anos antes em “Carnival Is Forever” (2011), “Blood Mantra” (2014) e Anticult (2017).

O álbum conta em sua formação com Wacław 'Vogg' Kiełtyka nas guitarras, Rafał 'Rasta' Piotrowski nos vocais e James Stewart na bateria, além de algumas participações de de membros das bandas Jinjer e Machine Head em músicas específicas.

O disco apresenta uma sonoridade que mistura uma penca de estilos, como technical death metal, groove metal, djent, thrash moderno e até mesmo passagens industriais e climáticas.

E mesmo em meio a esse bolo todo, o disco ainda é bem pesado, mas muito mais “controlado” do que a fase clássica e ultra técnica da época do “Nihility” (2002) ou “The Negation” (2024). O foco aqui está em riffs mais secos, groove esmagador e refrões agressivos mais memoráveis. 

É, talvez, um álbum que funciona como um equilíbrio entre brutalidade técnica e acessibilidade moderna, isso até mesmo nas temáticas apresentadas. As letras de “Cancer Culture” giram em torno de temas clássicos do death metal moderno, como decadência social, alienação, manipulação ideológica, paranoia coletiva, autodestruição, niilismo e, a sempre presente, crítica cultural moderna.

Até o próprio título, “Cancer Culture”, gerou polêmica por ser interpretado por parte do público como uma provocação ligada ao debate de “cancel culture”, o que acabou dividindo bastante a recepção do álbum entre fãs e críticos já que muita gente elogiou o instrumental e a produção, mas criticou o conceito e algumas letras por parecerem excessivamente diretas ou “boomer metal”.

Ainda assim, o álbum teve boa recepção musical mostrando uma banda extremamente sólida tecnicamente, especialmente no instrumental com riffs cirúrgicos e bateria absurdamente precisa. A produção moderna e limpa também não ficou atrás (ainda que os puritanos do death sujo não tenham gostado) e o equilíbrio entre caos e groove

Dentro da carreira do Decapitated, “Cancer Culture” acabou funcionando como uma consolidação da fase moderna da banda, além de uma boa tentativa de unir fãs antigos e novos com um álbum extremamente controverso em conceito, mas acabou ganhando respeito tecnicamente.

“Cancer Culture” talvez não tenha o status lendário de “Organic Hallucinosis” (2026) ou “The Negation”, mas é frequentemente visto como um dos discos mais fortes da era pós-reformulação do grupo após a tragédia de 2007 envolvendo a morte de Witold 'Vitek' Kiełtyka.

Marty Friedman - Inferno 

Marcando um momento muito importante na carreira de Marty Friedman, depois de anos focado principalmente no mercado japonês, “Inferno” representou um retorno pesado e agressivo ao metal virtuoso que ajudou a torná-lo famoso nos tempos de Megadeth. Foi, para muitos fãs, um álbum visto como “o disco que recolocou Marty Friedman no centro do metal moderno”. 

A sonoridade de “Inferno” apresenta uma mistura do que o guitarrista já havia feito nos tempos de Cacophony e Megadeth (thrash metal, metal melódico), mas também de sua carreira experimental com todo o seu heavy metal moderno junto com shred, música oriental/japonesa, neoclássico, groove metal e os elementos eletrônicos ocasionais. 

E mesmo com toda essa loucura sonora misturada em um balaio, o álbum não soa, de fato, como uma simples demonstração técnica. Mesmo extremamente virtuoso, Inferno acaba priorizando muito melodias mais fortes, uma identidade e maturidade emocional com climas dramáticos. 

É de longe um dos álbuns mais interessantes de Friedman, onde ele, em termos técnicos, explora praticamente tudo que define sua identidade, vibratos exagerados e emocionais, bends “vocais”, escalas exóticas, alternância entre caos e melodia, fraseados imprevisíveis e solos que parecem cantar. Claro, tudo isso com a guitarra como “personagem principal” do disco.

Inferno também traz algumas colaborações interessantes, como Alexi Laiho, do Children of Bodom, participando em “Lycanthrope”, David Davidson, do Revocation, em "Sociopaths", David Davidson, do Revocation em “World on Fire” e Jason Becker, antigo parceiro do guitarristas no Cacophony, em “Horrors" .

E apesar de um disco instrumental, Inferno tem bastante sentimento e consegue transmitir nas músicas uma intensidade emocional, sensação cinematográfica, agressividade, melancolia e um toque de grandiosidade.

De forma geral, Inferno é um trabalho bastante importante porque ajudou a reafirmar Marty Friedman como um guitarrista relevante no metal moderno aproximando fãs antigos e novos e mostrou que o guitarrista ainda conseguia soar inovador consolidando sua fusão entre Japão e metal técnico.

The Cult - Sonic Temple

 

Lançado em 1989, Sonic Temple foi, de longe, o álbum que transformou o The Cult em uma banda cultuada saída do pós-punk/gothic rock em um nome enorme do hard rock mundial do fim daquela década. 

O disco veio depois de uma evolução sonora gradual do pós-punk com "Dreamtime" (1984), da psicodelia de "Love" (1985) e do hard rock cru e direto de "Electric" (1987) levando o grupo a uma versão monumental de “arena rock” da identidade da banda encontrando o equilíbrio definitivo entre os estilos passados e o moderno.

Sonic Temple tem em sua execução guitarras enormes e abertas, refrões gigantes, clima místico e peso, além de uma influência direta de Led Zeppelin e The Doors, tudo isso com uma produção muito mais polida e voltada para uma difusão radiofônica.

As letras também trazem uma mistura interessante de espiritualidade, simbolismo indígena, misticismo, liberdade, desejo, transcendência, amor físico e espiritual e a rebeldia do rock da época 

Um bom exemplo dessa mistura e popularidade do disco está em “Fire Woman”, maior hit do álbum que, mesmo com riff simples, traz um groove hard rock inovador pro grupo, assim como um refrão explosivo que ajudou a chamar a atenção de um público fora da base de fãs da banda.

"Sonic Temple" foi o maior sucesso comercial do The Cult arrecadando disco multi-platina alcançando o auge de popularidade do The Cult e ajudando a colocar uma série de outras bandas no radar devido a sua influência. 

Doughnuts - Feel Me Bleed 

Um dos trabalhos mais marcantes da banda brasileira Doughnuts, "Feel Me Bleed" (1996) ajudou o grupo, que circulava entre o rock alternativo, grunge, hard rock e metal alternativo durante os anos 90, a sair daquele nicho e ganhar maior atenção de um público fora desses gêneros. 

Embora nunca tenha alcançado o mainstream massivo de bandas nacionais maiores da época, o Doughnuts conquistou um status cult dentro do underground brasileiro por misturar peso emocional, guitarras densas, doses de melancolia e forte influência do rock alternativo americano do período.

"Feel Me Bleed" é profundamente conectado ao clima dos anos 90 juntando hard rock, stoner leve e pós-grunge sem soar como mera cópia das bandas de maior sucesso no cenário até então. 

As letras de "Feel Me Bleed" trabalham muito com uma constante sensação de desgaste urbano e emocional apresentando temas como angústia emocional, relações humanas destrutivas e vazio existencial, bem presente já no título do disco (“Me veja sangrar” / “Sinta meu sangramento”) girando em torno de vulnerabilidade, tensão e exaustão emocional.

Esse álbum é importante porque representa uma geração de bandas brasileiras da metade dos anos 90, onde a explosão do rock alternativo se dava de maneira forte trazendo uma abertura para sonoridades mais densas. E o Doughnuts fazia parte desse contexto.

"Feel Me Bleed" é certamente um daqueles discos brasileiros underground que capturam muito bem o espírito do rock alternativo daquela década, mas sem soar artificial ou excessivamente comercial. É um álbum que merece redescoberta.

Bloodhunter - Knowledge Was The Price 

"Knowledge Was The Price" (2022) marcou um momento importante para a banda espanhola Bloodhunter, já que foi o disco que consolidou o grupo como um dos nomes mais fortes do melodic death metal/extreme metal moderno da Espanha.

O disco também ganhou bastante atenção internacional por trazer nos vocais Diva Satanica, que havia ficado conhecida por sua participação na versão espanhola do programa The Voice.

O som de "Knowledge Was The Price" mistura de tudo um pouco, apresentando melodic death metal, thrash metal moderno, groove metal e mais puro metal extremo, assim como uma identidade obscura, agressiva e, de certa forma, ritualística.

Dentre os maiores destaques do disco e grande parte da força do álbum vem da performance de Diva Satánica ficando evidente que ela evita soar “genérica” dentro do melodic death moderno trazendo bastante personalidade as músicas, sensação quase litúrgica em alguns momentos.

As letras de "Knowledge Was The Price" giram muito em torno de conhecimento proibido, ocultismo, autodestruição e transcendência. O próprio título já passa a ideia de adquirir consciência através de sofrimento.

Mas indo além de sua vocalista, o álbum também foi importante porque ampliou bastante a visibilidade internacional da banda mostrando que o melodic death moderno ainda podia soar agressivo sem virar metalcore genérico, consolidou Diva Satanica como frontwoman extrema relevante

Dentro do cenário espanhol de metal extremo, "Knowledge Was The Price" ajudou o Bloodhunter a ganhar projeção muito maior pelo mundo. E mesmo com sua produção moderna, o disco mantém muitas raízes do death metal melódico clássico europeu.

Sepultura — Roorback 

"Roorback" é um disco bem mais cru e seco que mistura uma série de gêneros, como thrash metal, groove metal, hardcore e um certo retorno ao death do passado. É um disco com um som bem menos “tribal” do que Roots (1996) e menos experimental do que "Against" (1998) ou "Nation" (2001) apresentando músicas mais diretas, agressivas e contemporâneas.

As letras de "Roorback" são extremamente políticas e pessimistas falando de corrupção, manipulação midiática, violência urbana e decadência política global, temas bastante claros já no título, “Roorback”, uma palavra ligada a boatos políticos e desinformação usados para manipular a opinião pública. O disco inteiro gira em torno da ideia de mentira como arma de poder.

O clima do álbum possui uma sensação de tensão constante e mesmo as músicas mais groovadas mantêm uma energia agressiva e, de certa forma, desconfortável. Não é um álbum “divertido”, mas um disco de pressão psicológica e indignação.

Entre as faixas mais importantes, junto a “Come Back Alive” e “MindWar, muito influenciadas por um clima militar e paranoia, está o cover de U2 “Bullet the Blue Sky” que traz de forma pesada todo o tema do disco de uma maneira extremamente pesada e que ajudou o álbum a alcançar públicos fora do metal extremo tradicional. Para muita gente um dos, se não o melhor, melhores covers do Sepultura.

"Roorback" ajudou a fortalecer a fase Derrick Green mostrando um Sepultura mais coeso após anos turbulentos e que ajudou e aproximou a banda da estética metal dos anos 2000 sem abandonar totalmente suas raízes thrash/hardcore. É um disco bastante subestimado da discografia do grupo.

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