Fantasia, imaginação e o poder de uma História Sem Fim

Por Felipe Leonel
Escrito pelo alemão Michael Ende e publicado em 1979, “A História Sem Fim” (Die unendliche Geschichte) é uma fantasia infantil que transforma o ato de ler e o próprio leitor em parte da aventura.
A trama acompanha Bastian, um garoto solitário que encontra um livro misterioso e o começa a ler escondido. Dentro das páginas desse livro existe Fantasia, um mundo incrível ameaçado pelo Nada e comandando pela enigmática Imperatriz Menina que tem como seu guardião involuntário um jovem guerreiro chamado Atreyu.
Em “A História Sem Fim”, Ende não utiliza a fantasia apenas para criar um mundo distante da realidade — o autor também a utiliza para discutir o que acontece quando uma pessoa encontra, dentro de uma história, uma maneira de confrontar aquilo que não consegue resolver fora dela.
Michael Ende e o nascimento de “A História Sem Fim”
Michael Ende (1929–1995) foi um escritor alemão conhecido principalmente por suas obras voltadas à fantasia e à literatura infanto-juvenil. Antes de se tornar escritor em tempo integral, estudou teatro e trabalhou como ator e crítico, experiências que contribuíram para sua maneira particular de construir mundos e personagens.
Sua literatura, porém, nunca se limitou a aventuras fantásticas. Ende frequentemente utilizava elementos imaginários para discutir questões bastante concretas, como tempo, identidade, consumo, solidão e a relação entre realidade e imaginação. “A História Sem Fim” se tornou sua obra mais conhecida internacionalmente, ao lado de outra de suas obras chamada apenas “Momo” (1973).
De onde surgiu a ideia de A História Sem Fim?
Ende começou a desenvolver o romance no início dos anos 1970, a partir de uma ideia que inicialmente parecia bem mais simples — um garoto encontra um livro e entra dentro daquela história que está lendo. O conceito acabou crescendo até se transformar em um romance extenso, no qual o mundo real e Fantasia passam a depender um do outro.
A própria estrutura da obra nasce dessa relação. Enquanto acompanha os acontecimentos do livro que encontrou, Bastian continua existindo em seu próprio mundo, sentado e lendo. Aos poucos, entretanto, a separação entre essas duas realidades fica cada vez mais frágil.
Essa mistura permite que Ende construa uma fantasia que não funciona apenas como um lugar para onde o personagem escapa, Fantasia também passa a refletir aquilo que o protagonista de fato é, deseja e precisa enfrentar.

Um livro sobre livros, leitores e imaginação
Essa talvez seja a característica mais singular do romance. “A História Sem Fim” não trata o leitor como alguém completamente separado da aventura. Bastian começa como espectador, mas sua relação com a história muda conforme a narrativa avança.
O livro dentro do livro funciona como uma espécie de ponte entre a realidade e a imaginação. O que Bastian lê influencia sua própria experiência, enquanto sua presença começa a interferir no destino de Fantasia.
É uma ideia simples, mas poderosa — uma história pode mudar quem a lê — e, em determinadas circunstâncias, o leitor também pode mudar a história dentro do livro.
Quem é Bastian Balthazar Bux?
Bastian Balthazar Bux é um garoto de dez anos que vive uma realidade muito distante das aventuras que encontra nos livros. Após a morte da mãe, sua relação com o pai se torna distante, e Bastian passa a enfrentar dificuldades na escola, onde é alvo de provocações e não se sente pertencente a grupo algum.
Ele é imaginativo, sensível e apaixonado por histórias, mas também carrega uma profunda insegurança. Os livros funcionam como uma forma de escapar de uma realidade na qual se sente pequeno e deslocado.
O livro que Bastian não deveria ter roubado
A mudança começa quando Bastian, ao fugir de alguns garotos da escola, entra sem querer em um antiquário e, lá, encontra um homem lendo um livro de aparência incomum. Fascinado pelo objeto, ele acaba roubando o exemplar e fugindo para a escola, onde se esconde no sótão.
Ali, começa a ler “A História Sem Fim”. O que ele não sabe é que aquele livro não é como os outros. A narrativa apresenta um mundo muito diferente, ameaçado pelo avanço de uma força misteriosa e como desafios que não podem ser resolvidos pelos personagens dentro daquela trama.

Quando o leitor se torna parte da história
No início, Bastian acompanha os acontecimentos como qualquer outro leitor. Ele observa a jornada do jovem Atreyu com empolgação, conhece a Imperatriz Menina e testemunha a tentativa de salvar Fantasia de seu desaparecimento.
Aos poucos, porém, sua posição muda. Bastian percebe que não está mais apenas lendo sobre aquele mundo — em certo momento, a própria história começa a reconhecer sua presença e o atrair para dentro dela.
É nesse momento que o livro deixa de ser apenas uma aventura ficcional que Bastian acompanha à distância. O garoto agora passa a ter uma função dentro dela, e a separação entre quem lê e quem é lido começa a desaparecer.
A história de A História Sem Fim
A aventura de Bastian começa quando o garoto, depois de fugir de alguns meninos que o perseguem e fazem bullying com ele, entra em um antiquário, a loja de Karl Konrad Koreander, e ali encontra o tal livro. Curioso, Bastian rouba o livro e o leva para ler escondido no sótão da escola enquanto matava aula.
O livro apresenta um mundo conhecido como Fantasia, ameaçado pelo avanço de uma força chamada apenas de “Nada”. Enquanto a própria existência daquele universo está desaparecendo, a Imperatriz Menina adoece e ninguém parece capaz de encontrar uma solução.
A missão de encontrar essa solução acaba nas mãos de um jovem guerreiro chamado Atreyu, encarregado de descobrir uma forma de salvar seu mundo e, principalmente, encontrar alguém capaz de ajudar a Imperatriz.
Durante sua jornada, Atreyu descobre que a solução está ligada ao próprio mundo dos humanos. Fantasia precisa de um novo nome para sua soberana, e só quem pode oferecer isso é justamente uma criança do mundo real.
Aos poucos, Bastian percebe que a história que está lendo fala diretamente com ele. Quando finalmente compreende que é o garoto que Fantasia procura, pronuncia o novo nome da Imperatriz — Criança da Lua — e recria o mundo que havia sido consumido pelo Nada.
Mesmo com a salvação de Fantasia, sua história não se encerra. Bastian recebe da soberana o poder de reconstruir aquele mundo utilizando sua imaginação e passa a criar novas paisagens, criaturas e possibilidades. Bastian também recebe o AURYN, símbolo da Garota e objeto que permite realizar todos os seus desejos.
No entanto, aquilo que inicialmente parece ser um poder absoluto começa a transformar Bastian. Seus desejos fazem com que ele construa uma nova identidade dentro de Fantasia e, ao mesmo tempo, se afaste cada vez mais de quem era antes esquecendo de si próprio a cada desejo realizado.
Bastian se torna poderoso, mas também arrogante e obcecado por tudo aquilo que pode conquistar. Em determinado momento, chega a desejar se tornar Imperador de Fantasia, se colocando em conflito com aqueles que antes eram seus aliados.
A trajetória de Bastian passa então a ser uma busca por aquilo que havia perdido. Ele precisa compreender que imaginar não significa simplesmente conseguir tudo o que deseja. Para retornar ao mundo real, o garoto precisa recuperar sua própria identidade e descobrir o que realmente deseja no fundo de si mesmo.
Depois de enfrentar as consequências de suas escolhas, Bastian finalmente encontra o caminho de volta e retorna a seu pai, agora transformado pela experiência que viveu dentro daquele mundo fantástico.

Uma história contada de A até Z
A própria estrutura do romance reforça sua ideia de infinitude. Os 26 capítulos são identificados pelas letras do alfabeto, de A a Z, e cada um recebe uma ilustração correspondente aquela letra.
Não é apenas uma escolha estética — essa organização cria a sensação de que o leitor está diante de um livro cuidadosamente construído como um objeto dentro da própria história. Isso também combina com a maneira como Ende brinca com os limites entre realidade e ficção:
O leitor acompanha Bastian lendo um livro que, por sua vez, parece ter consciência de seu próprio leitor.
A História Sem Fim fala sobre alguém que entra em uma história, mas também sobre uma história que parece estar esperando que alguém entre nela.
E talvez seja justamente por isso que o título faça tanto sentido. A aventura de Bastian termina quando ele retorna para casa, mas a história que ele encontrou continua existindo dentro dele — e dentro de cada pessoa que um dia irá abrir aquele livro.
A inscrição na porta do antiquário
Esse é um dos detalhes mais legais da abertura do romance. Assim que consegue despistar os garotos e entrar no antiquário, a primeira coisa que Bastian se depara é justamente com uma inscrição na porta da loja, de forma espelhada para quem olha de fora, de modo que só pode ser lida corretamente por quem está dentro da loja olhando para a rua.
Vista de fora, o que se lê é:
“tairauqitnA – rednaeroK darnoK lraK :rebahnI”
Quando vista por dentro, a inscrição passa a ser:
“Inhaber: Karl Konrad Koreander - Antiquariat” (Antiquário Karl Konrad Koreander — proprietário)
O detalhe da inscrição é ainda mais interessante porque o livro começa literalmente de dentro para fora — o leitor vê primeiro a inscrição como ela apareceria para alguém que está dentro da loja olhando através do vidro.
Mais tarde, ao final da história, quando Bastian retorna a loja para devolver o livro, essa mesma combinação de letras volta a aparecer, mas dessa vez o garoto a encontra na orientação "normal", vista de fora, e inicialmente não a reconhece como a placa do antiquário.
É uma pequena brincadeira que o autor dá ao leitor de como perspectiva e realidade combinam perfeitamente com o restante da obra. A primeira coisa que o leitor encontra em “A História Sem Fim” já é uma espécie de pista sobre o que o livro vai fazer com realidade e fantasia — o que parece invertido de um lado pode ser perfeitamente normal do outro.

Fantasia, o Nada e o poder da imaginação
Fantasia é muito mais do que o cenário da aventura de Bastian. É um mundo formado por criaturas, lugares e possibilidades que existem justamente porque podem ser imaginados. Por isso, sua destruição representa algo maior do que a derrota de um reino fantástico, significa o desaparecimento da capacidade de criar, sonhar e atribuir significado às coisas.
Quando a história começa, Fantasia está sendo consumida pelo Nada. Regiões inteiras desaparecem, criaturas fogem e os habitantes não conseguem compreender exatamente o que está acontecendo.
Não existe um exército inimigo ocupando territórios ou uma criatura maligna destruindo o mundo deliberadamente. O próprio espaço de Fantasia está simplesmente deixando de existir.
A ameaça também está ligada à situação da Imperatriz Menina, cuja doença parece acompanhar o avanço do Nada. Salvar Fantasia significa descobrir por que aquele mundo está desaparecendo e encontrar uma maneira de o fazer existir novamente.
O que realmente é o Nada?
O Nada não funciona como um vilão tradicional. Ele não possui uma personalidade, um exército ou um objetivo claramente definido. Sua ameaça está justamente em não ser alguma coisa.
Dentro da lógica do livro, o Nada está relacionado ao desaparecimento da imaginação e ao vazio deixado quando as pessoas deixam de sonhar e de acreditar em possibilidades.
Quando algo é atingido pelo Nada, não sobra uma ruína, aquilo simplesmente deixa de existir. Por isso, enfrentar o Nada não significa apenas derrotar um inimigo, mas encontrar novamente aquilo que dá sentido à existência de Fantasia.
H3 Fantasia existe enquanto alguém consegue imaginá-la
Essa relação entre Fantasia e imaginação é uma das ideias centrais do romance. O mundo fantástico depende da capacidade dos seres humanos de imaginar, criar e desejar e Bastian é importante para essa história justamente porque pertence ao mundo real.
Sua imaginação permite que Fantasia seja reconstruída, mas também revela uma consequência inesperada, aquilo que imaginamos pode modificar a maneira como enxergamos a nós mesmos.
Fantasia funciona como uma espécie de espelho. Quanto mais Bastian cria aquele mundo, mais seus próprios desejos aparecem dentro dele.
H3 Imaginar também significa assumir responsabilidades
No começo, Bastian vê a imaginação como uma forma de escapar da realidade. Mas em Fantasia, ele descobre que possuir o poder de criar também significa ter que lidar com as consequências daquilo que cria.
Seus desejos podem transformar lugares, personagens e até sua própria identidade. O problema é que nem todo desejo produz aquilo que Bastian realmente precisa.
É justamente essa contradição que torna sua jornada mais complexa. Imaginar pode oferecer liberdade, mas também pode criar uma prisão quando a pessoa passa a confundir aquilo que deseja com aquilo que realmente é.
Ao entrar em Fantasia, Bastian não precisa apenas salvar um mundo, nesse ponto, ele também precisa descobrir quem é e quando pode, de fato, ser qualquer coisa.

Quando a fantasia deixa de ser apenas uma fuga
Para Bastian, Fantasia começa como aquilo que ele, e tantos outros, sempre procurou nos livros, começa como um lugar onde se pode escapar da realidade.
Porém, quando deixa de ser apenas leitor e passa a ter poder dentro daquele mundo, a fantasia assume outra função. Ela já não serve somente para afastar o garoto dos problemas, ela passa a colocar ele diante desses problemas.
Bastian finalmente consegue o que deseja
Em Fantasia, Bastian deixa de ser o garoto inseguro que era no mundo real. Ele recebe a capacidade de transformar a paisagem e os elementos ao seu redor permitindo que possa experimentar uma liberdade que nunca teve.
O problema é que conseguir aquilo que deseja não significa necessariamente encontrar aquilo de que precisa. Seus primeiros desejos parecem resolver suas inseguranças, mas cada nova transformação também o afasta um pouco mais de sua antiga identidade.
O poder de criar uma nova identidade
É aqui que o garoto começa a construir para si uma versão idealizada de quem gostaria de ser. Mais forte, mais corajoso, mais admirado e capaz de realizar tudo aquilo que antes parecia impossível.
Fantasia permite que ele experimente todas essas possibilidades, mas também mostra o perigo de abandonar completamente quem ele realmente é. Quanto mais Bastian tenta se transformar, mais difícil fica lembrar por que havia entrado naquele mundo.
E é nesse ponto que o romance mostra que o problema já não é simplesmente salvar Fantasia. Aqui, o mundo fantástico de criaturas e ambientes sensacionais já está seguro. Agora, é preciso entender o preço de poder se transformar de acordo com os próprios desejos.
Cada realização de Bastian traz a ele novas consequências e, nesse ponto, o garoto começa a perder referências que antes ajudavam a definir quem ele era. O poder que parecia representar liberdade passa, pouco a pouco, a funcionar como uma armadilha.
Ende transforma, assim, uma fantasia infantil bastante comum — “e se eu pudesse ter tudo o que desejo?” — em uma pergunta bem mais desconfortável — “o que aconteceria se realmente pudéssemos fazer tudo?”
Voltar para casa também faz parte da aventura
No fim, Bastian precisa compreender que Fantasia não pode substituir sua vida real. Seu objetivo deixa de ser permanecer naquele mundo perfeito e passa a ser encontrar aquilo que realmente deseja e recuperar a capacidade de voltar para casa.
Sua jornada termina quando o jovem finalmente entende que crescer não significa abandonar a imaginação, mas aprender a utilizar ela sem precisar fugir de quem você realmente é.
E esse retorno de Bastian durante a conclusão possui um significado bem maior do que simplesmente voltar para casa, voltar para o mundo real, Bastian retorna diferente porque agora conhece suas próprias possibilidades — e também seus limites.
A História Sem Fim no cinema
Em 1984, “A História Sem Fim” (The NeverEnding Story) chegou aos cinemas pelas mãos do diretor, também alemão, Wolfgang Petersen, em uma produção que se tornaria uma das fantasias infantis mais marcantes daquela década e lembrada até hoje por muitos.
“A História Sem Fim: O Filme” chama atenção por vários motivos, entre eles a maneira como a produção construiu Fantasia utilizando recursos práticos e não digitais. Grande parte das criaturas foi criada utilizando animatrônicos, marionetes, maquetes e efeitos práticos combinados com cenários físicos e técnicas de composição visual.
O resultado dessa criatividade, deu àquele universo uma aparência bastante particular e muito mais real, como se o espectador pudesse, de fato, tocar naquele mundo. Personagens como Falkor, o gigantesco Rock Biter e o tenebroso Gmork ganharam presença física e acabaram se tornando tão reconhecíveis quanto os próprios protagonistas.
Com o tempo, o filme passou a existir quase como uma obra independente e com uma parcela considerável do público desconhecendo a existência de seu material de origem. Mas para quem conhece o livro, vê no filme uma obra de interpretação muito mais limitada e, justamente por isso, bastante diferente da história criada por Ende.
Livro e filme: o que é igual e o que muda?
A adaptação de 1984 preserva a premissa central do romance e boa parte dos acontecimentos iniciais, mas a semelhança entre as duas obras diminui justamente quando a versão literária de Bastian começa a ficar mais complexa.
A primeira metade do livro acompanha elementos bastante reconhecíveis para quem conhece o filme — Bastian encontra o livro, começa a ler, conhece a situação de Fantasia e acompanha a missão de Atreyu. O Nada, a Imperatriz Menina, Falkor e a busca por uma maneira de salvar aquele mundo também estão presentes.
O ponto de aproximação mais importante acontece quando Bastian percebe que não está apenas acompanhando os acontecimentos, mas que possui um papel fundamental dentro deles. É nesse momento que filme e livro praticamente se tocam.
A partir do momento em que a soberana de Fantasia recebe seu novo nome e Bastian ganha seu grande presente — conhecer aquele mundo e as criaturas que lá vivem como recompensa por ter salvo aquele mundo — a trama do filme se distancia completamente do livro, já que aqui o filme se encerra.
E a principal diferença está justamente depois desse momento. No romance, salvar Fantasia não encerra a aventura. É a partir daí que começa uma segunda parte bastante extensa e densa da história, mais centrada em Bastian, em seus desejos, em sua transformação e em sua tentativa de recuperar a própria identidade. No filme, tudo isso é completamente ignorado.
Sim, essa escolha muda completamente a experiência do espectador e também sim, o filme é principalmente uma aventura sobre salvar um mundo fantástico. E mesmo que o livro também ofereça essa premissa, nas páginas, também há uma história sobre o que acontece depois que você recebe o poder de criar e recriar esse mundo. Ou seja, o filme termina justamente quando o livro muda de direção expandindo sua narrativa.

Michael Ende e sua rejeição a adaptação
A relação de Ende com a adaptação cinematográfica foi bastante conturbada. O escritor chegou a participar das primeiras etapas do projeto, mas passou a se opor à maneira como sua obra estava sendo transformada. Para ele, a produção havia reduzido uma história sobre imaginação, identidade e transformação pessoal a uma aventura fantástica convencional.
E o principal problema do autor não era simplesmente pelas mudanças em relação ao livro, mas sim a mudança de significado da história, mais especificamente, da segunda metade do romance, justamente aquela em que Bastian enfrenta as consequências de seus desejos e que foi deixada de lado.
Para Ende, isso eliminava uma parte essencial daquilo que pretendia discutir com o personagem. O escritor chegou a exigir que seu nome fosse retirado do projeto e declarou publicamente sua insatisfação com o resultado.
O filme chegou aos cinemas como esperado e seguiu seu próprio caminho, enquanto Ende continuou defendendo que aquela versão não representava adequadamente o que ele havia criado poucos anos antes.

A expansão do Tudo no universo de Fantasia
Essa situação, porém, criou uma das ironias mais curiosas envolvendo “A História Sem Fim”. O filme se tornou um clássico para várias gerações, mesmo tendo sido rejeitado pelo próprio criador do livro, tanto que chegou a ganhar algumas continuações para o cinema e outras adaptações para a televisão.
A primeira delas foi “A História Sem Fim II: O Próximo Capítulo” (1990), com Jonathan Brandis assumindo o papel de Bastian e Kenny Morrison como Atreyu. O filme utiliza alguns elementos da segunda metade do livro, mas constrói uma história própria, não sendo exatamente uma adaptação do que ficou de fora do primeiro filme.
Quatro anos depois, “A História Sem Fim III” (1994) levou a franquia ainda mais para longe do romance original. A produção manteve personagens e elementos reconhecíveis do universo de Ende, mas apresentou uma história praticamente original.
Entre 1995 e 1996, surgiu na televisão “The Neverending Story Animated Series”, produzida pela Nelvana e Ellipse e contava com 26 episódios. Outra adaptação que até chegou a usar elementos do livro, mas criava novas aventuras em Fantasia, em vez de adaptar diretamente o romance.
Em 2001, chegou às telinhas do hemisfério norte “Tales from the Neverending Story” (2001–2002), dessa vez uma série live-action. Contando com 13 episódios, a série foi produzida no Canadá e em alguns mercados, inclusive nos Estados Unidos e Brasil, os episódios foram reorganizados como quatro filmes para televisão.
Indo um pouco mais longe nas adaptações, o livro também chegou a ganhar duas montagens em teatro, uma em Berlim em 1984 e outra como teatro de marionetes, o Düsseldorfer Marionetten-Theater, em 2012.
Em 2004, quase dez anos após a morte de Ende, o compositor alemão Siegfried Matthus transformou a obra em uma ópera, com libreto de Anton Perrey. Sua estreia ocorreu simultaneamente no Nationaltheater Weimar e no Theater Trier.
Fechando a lista de adaptações, “A História Sem Fim” também ganhou algumas várias versões em áudio, mas uma das mais interessantes é o radioteatro produzido pelo WDR em 2014, com mais de cinco horas, mais de 40 vozes, música original e efeitos sonoros. Já a edição integral em audiolivro tem narração de Gert Heidenreich e tem cerca de 15 horas de duração.
Por que “A História Sem Fim” continua sendo tão lembrada?
Bom, “A História Sem Fim” continua sendo lembrada porque utiliza a fantasia para falar de experiências que não envelhecem — o desejo de escapar, o medo de mudar, a necessidade de descobrir quem somos e a importância de continuar imaginando.
No fundo, a obra de Michael Ende é também uma celebração do próprio ato de contar e ouvir histórias. Livros não aparecem apenas como objetos dentro da narrativa, eles funcionam como portas para outras possibilidades e como formas de compreender aquilo que a realidade nem sempre consegue explicar.
A jornada de Bastian é uma história sobre amadurecimento que começa quando o garoto tenta fugir de uma realidade na qual não se sente confortável e descobre que crescer não significa se transformar em outra pessoa para ser aceito.
Sua experiência em Fantasia o obriga a confrontar seus desejos, suas inseguranças e as consequências de suas escolhas. No fim, retornar para casa não significa voltar a ser exatamente quem era, mas aprender a viver com aquilo que descobriu sobre si mesmo.
E, claro, é fácil dizer que o filme e suas continuações (além de outras adaptações) tiveram um papel extremamente importante em imprimir “A História Sem Fim” na memória de tanta gente. Mas a verdade é que o próprio livro conseguiu quase sozinho permanecer lembrado e absurdamente relevante por tanto tempo sem depender apenas da nostalgia.
E talvez, o melhor motivo para isso, foi ter encontrado novas gerações de leitores a cada década, onde cada geração pode descobrir algo diferente nessa história fantástica, como uma simples aventura, como algo sobre infância, sobre identidade, sobre imaginação ou… sobre tudo isso ao mesmo tempo.
Ainda que seja o nome de um livro de ficção fantástica, “A História Sem Fim” se tornou, de fato, uma história realmente sem fim na realidade, e de uma forma maravilhosa onde sempre existe alguém disposto a abrir esse livro e descobrir essa história novamente.



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