Subtera: Metal Extremo Pé Vermelho

Por Felipe Leonel
Quando se fala na história cultural do norte do Paraná, Londrina se mostra uma das cidades mais prolíferas da literatura, do teatro (FILO por exemplo), da música popular ou dos grandes eventos que ajudaram a construir a identidade artística da região ao longo das décadas. Mas existiu uma outra história correndo paralelamente a essa narrativa oficial: a história do metal underground.
Entre garagens, pequenos estúdios, bares, centros culturais e casas de shows que já não existem mais, o rock pesado encontrou terreno fértil para crescer e formar gerações de músicos dispostos a seguir caminhos próprios. Foi nesse ambiente que o metal londrinense desenvolveu sua personalidade.
Longe dos grandes centros da indústria musical, bandas locais construíram suas trajetórias de forma independente, apoiadas pela dedicação de músicos, produtores, fanzines e fãs que mantinham a cena viva.
Entre os diversos nomes, fossem bandas ou artistas solo, que surgiram nesse contexto, e onde muitos tiveram representatividade, entre as principais bandas da cena do underground da cidade estava o Subtera.
Com uma sonoridade extrema, letras voltadas para críticas sociais e uma trajetória construída na base da persistência, a banda se tornou uma das referências mais respeitadas do metal produzido em Londrina durante os anos 2000.
Misturando death metal com influências de metalcore, grindcore e thrash, a banda esteve na ativa entre 2000 e 2008. Antes disso, de 1993 até seu nascimento de fato, o grupo existia sob o nome Core, mas após a saída dos músicos Filipe Zocco (baixo) e Alexandre Bressan (guitarra), os membros restantes se reformularam e adotaram o nome Subtera. O próprio nome "Subtera" deriva do Esperanto e significa algo próximo de "subterrâneo" ou "underground".
O power trio pé vermelho era formado por William Fernandez (vocal e guitarra), Patrick Sagioratto (baixo e vocal) e Waldner Fernandez (bateria) e faziam um som extremamente pesado, cru e direto, assim como uma banda que não buscava experimentalismo nem virtuosismo excessivo, mas sim uma abordagem old school baseada em agressividade, velocidade e impacto.
E assim como o som, as letras abordavam temáticas clássicas do death metal, como degradação da sociedade e “violência", mas também iam um pouco mais longe nas abrindo espaço para falar sobre problemas sociais e sobre o destino da humanidade após catástrofes.
Em seus pouco mais de oito anos de existência, o Subtera lançou três discos, “Discord’ (2001), “Nothing and Death” (2002) e “Apocalypsed” (2005). Nada de singles, EPs ou coletâneas. Uma crueza que fazia jus ao grupo da forma mais certeira possível.
Discord (2001)
Primeiro álbum do grupo, “Discord” marcou a transição definitiva da antiga banda, o Core, para a identidade da Subtera de fato. O disco trazia a já citada mistura de death metal, metalcore e grindcore, em músicas extremamente rápidas, riffs cortantes e letras afiadíssimas.
Faixas como "Discord", “Erased”, "Disoriented Leaders" e "Atmosfear" já mostravam uma banda interessada em crítica social muito mais do que apenas em temas tradicionais do death metal.
Nothing and Death (2002)
Geralmente o trabalho mais lembrado pelos fãs e até mesmo pela imprensa especializada "Nothing and Death" é um o disco que mostra o Subtera na sua pompa mais death metal old school, com músicas absurdamente cruas, diretas e sem experimentalismos.
Assim como o trabalho anterior, o álbum também foi lançado de forma independente e ajudou a consolidar o nome da banda nacionalmente trazendo faixas como "Capitalist Perversion", "R.I.P. Mankind" e "Massive Infection".
Aqui, o diferencial era justamente a combinação de brutalidade com crítica social sem nenhum espaço para virtuosismo gratuito. O objetivo era impacto.
Apocalypsed (2005)
Talvez seja o álbum mais ambicioso do Subtera, é em "Apocalypsed" que a banda buscou variar mais suas texturas sonoras gravando o disco de forma totalmente analógica no estúdio Da Tribo, em São Paulo, para obter uma sonoridade mais orgânica.
E ainda que a variedade de temas não seja dos maiores, em relação aos trabalhos anteriores, as músicas abordam temas um pouco diferentes, como extinção da humanidade, destruição ambiental, guerras, decadência social e colapso civilizacional.
Faixas como "Acid Rain", "Hand of Extinction", "Social Disease" e a própria "Apocalypsed" deixam clara essa temática. “Apocalypse" é o último disco do grupo antes de sua separação e fim completo da banda, assim como o único trabalho do grupo lançado tanto em CD (apenas em 2005 e totalmente esgotado atualmente) e vinil pela Vermelho Discos em 2022.
O legado
O que mais chama atenção no Subtera é que a banda representa uma época muito específica do metal brasilerio. Antes das redes sociais, bandas como eles dependiam de demos, zines, shows em centros culturais, correspondência e selos independentes. Mesmo assim, o Subtera conseguiu fazer turnês nacionais, lançar discos e construir uma reputação sólida dentro da cena extrema.
Para quem gosta de death metal brasileiro dos anos 2000, o grupo certamente ocupa um espaço semelhante ao de várias bandas cult do período, não virou fenômeno, mas deixou discos honestos, pesados e muito representativos do underground nacional conquistando respeito dentro da cena extrema sem concessões.
E sendo você de Londrina (como eu), existe um elemento extra de interesse: o Subtera é uma das bandas que ajudaram a colocar a cidade no mapa do metal extremo brasileiro, sempre sendo lembrada com bastante carinho e citada como um dos orgulhos da cena local. E não é exagero dizer que, para muita gente da cena underground da época, eles eram uma das referências mais fortes do Paraná.



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